A Luta

A LUTA

Bom dia, amiga Vida. A semana está começando. Ontem não te escrevi. Era domingo. Resolvi me socializar um pouco com os que amo e conhecer outros para amar. Sabe, minha alma é leve, encanta-se facilmente com a vida, e de quando em vez vejo-me entregue às trocas de experiências salutares com outros de minha espécie. Sou de paz, tento manter o equilíbrio da boa ordem relacional com todos. 
Mas quero abrir um precedente aqui. Creio que uma confissão. Não se surpreenda, mesmo sabendo que lhe pedir isso seria infrutífero. O que aconteceu?, me indagas curiosa. Ontem briguei. Sim isso mesmo. Um desentendimento diferente. De repente estava contemplativo. Vi, ao longe, que levavam algo de mim. Mas percebi que não havia sentindo o momento de tal furto. Então corri. Na verdade nem sei o que levaram, sei que senti falta. Parece estranho - ponderas. Era sim. Mas minha existência sentiu a necessidade de correr atrás de algo que lhe pertencia. Só não sabia o quê.

Separei folhas velhas pelo chão, com o vento da minha velocidade. Senti-me nalguns momentos sufocado, cansado. Mas a minha condição momentânea não se sobrepunha ao desejo de me ver ressarcido de tal lesão. Tornei-me maratonista em busca de um troféu. Mas era muito mais o que estava em jogo. 
Decepcionante, entretanto, era sentir-me cada vez distante. Alcançar o meu alvo estava se tornando utópico, quase miraculoso ato. Mas eu não desistia. Sabe, dona Vida, quando se corre sabendo que alguma coisa vai decerto acontecer, mesmo não sabendo o quê? Era isso que me inundava a mente, fazendo com que meus músculos fossem oxigenados mais que o normal. 
Foi aí que, não mais que de repente, alcancei... Quem? O quê? - me questionas. Na verdade nem eu sabia. Joguei-me sobre ele - ou ela, ou alguma coisa? - e começamos a travar um duelo campal. Golpeei. Fui golpeado. Meu adversário era exímio lutador. Tentava eu me defender com a medida possível da minha capacidade. Mas os golpes eram duros e me explodiam em áreas do corpo que minavam as minhas defesas. Cirurgicamente me pontuou certeira pancada na minha perseverança; depois, com a destreza de um grande guerreiro, acertou-me na região da paciência. Fiquei fraco e quase não dava para respirar. Noutro instante, me direcionou um soco direto na minha capacidade de ser coerente. 
Minhas forças foram se diluindo. Como se não bastasse, golpeou-me os sonhos. Era uma luta quase desigual. Parece que o meu oponente sabia a intensidade dos murros e o local a serem objetivados. Tentei proteger-me de todas as formas. Afastei-me. Abaixei-me. Fui para a direita e para a esquerda. De súbito, dona Vida, vi que já havia sangue por todas as partes. 
O embate já era apenas um batendo e outro apanhando. Recebi uma profunda pancada na razão. Meu corpo todo sentiu. Minha consciência sofreu duro soco. E meu adversário parecia não sentir nada. Minhas investidas não surtiam efeito. Quanto mais eu batia, mais ele ficava em pé, e quanto mais eu apanhava, mais perto eu declarava meu fim. Fragmentou-me a alegria, a disposição, e enfraqueceu-me o caráter. Já quase não restava nada de mim. Mas eu lutava como se ainda tivesse tudo para apostar. 
Sofri uma forte lesão na minha condição de conceber laços com outros; não demorou me fustigou um ferimento na minha paz. Esse encontro já demorava bastante e eu já não sabia quanto tempo poderia suportar. Mas meu senso e inteligência guiaram meus punhos. Bum!... Acertei mortalmente aquele gladiador. Onde lhe feri? - me perguntas. Na própria fraqueza dele: Eu. 
Tomei o que me roubava. Então, percebi o que era: meu futuro. Estás surpresa mais uma vez, digníssima Vida? Também eu. Mas aprendi que mesmo não o conhecendo - meu futuro - ele me pertencia. E foi necessário derrotar o maior adversário, que corria velozmente contra mim, mantendo duro duelo, estratégico, perspicaz, diligente, sagaz. 
É, dona Vida, de quando em vez sou guerreiro e defendo, com minha existência, até o que vou ser, pois não sabendo como será, mais proteção o meu futuro merece do meu presente.

30.03.15
By Jahilton Magno

As Crianças Sem Futuro

Em homenagem a Aylan Kurdi, o menino sírio de três anos que morreu afogado na quarta-feira (2) em Bodrum, na Turquia

Jesus, porém, disse: Deixai as crianças e não as impeçais de virem a mim, porque de tais é o reino dos céus (Mateus 19:14) 


Sou pai. Tenho certeza de que, se um dia precisar, deixo de me oferecer qualquer benefício para faze-lo a minha filha. A obrigação de promover o melhor para sua família é algo instintivo no pai ou na mãe. É assim nos animais irracionais, é assim conosco. Quando isso não acontece, algo está fora do prumo natural do desenrolar da vida. Ver um filho chorar é um sofrimento muito grande. Pai ou mãe desejaria, se possível, transferir qualquer dor de um filho para si. Principalmente quando ela é pequena, desprovida de recursos até mesmo naturais de encarar os desafios da vida. Sobreviver já se torna, hoje em dia, um ato de pura bravura para um adulto; mais ainda o é para um ser pequeno e indefeso.
Jesus demonstrou cuidado especial pelas crianças e disse que delas era o reino de Deus. O reino de Deus é justiça, amor, paz, liberdade, oportunidade, respeito, valor. O apóstolo Paulo nos lembrou isso em sua carta aos romanos: Porquanto o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Romanos 14:17). Em vários trechos da bíblia, vemos que os filhos são presentes de Deus (Gênesis 33:5; Josué 24:3; Salmos 127:3). A criança é um presente de Deus, e, como tal, deve ser tratada à altura da grandeza de quem permitiu que assim fosse.Mas ao ser noticiada na mídia de ontem e hoje de que um corpo de uma criança síria foi achado em uma praia da Turquia, damo-nos conta de que o valor da criança foi esquecido em face de uma guerra inexplicável. O naufrágio da embarcação em que fugia da guerra, não somente tirou a vida daquela criança - como também de outras e vários adultos - mas escancarou para o mundo que o desrespeito pela vida chegou ao extremo, através dessa guerra estúpida, irracional, covarde e brutal, como acontece hoje naquela parte do mundo. Quem deveria estar sorrindo, hoje chora. Quem deveria estar brincando, hoje se encolhe no colo de pais aturdidos, perplexos, assaltados da sua dignidade e buscando em qualquer lugar apenas um local seguro para si e para os pequenos. Quem deveria estar fechando os olhos para brincar de "esconde-esconde", hoje os fecha para a vida, banhada pelas águas de uma praia que apenas simboliza a morte, a dor e o desespero. Quem deveria pegar nas mãos a areia para brincar, a tem misturada ao seu corpo, apenas esperando que algum soldado o encontre para, se possível, fazer um sepultamento digno do valor que Deus lhe atribuiu. Ser criança naquele pedaço de mundo é simplesmente ver roubados os sonhos de um futuro normal, como deveria ser. Ser criança, nessas circunstâncias de guerra, é viajar por lugares novos não como um turista que se encanta com as mais lindas paisagens e descobertas de um mundo novo, mas como fugitivo que abandona a paz, o sossego, a escola, a dignidade, atropelando uma fase da vida que nunca mais volta.
Essa guerra, que é fugir em busca de segurança, coloca em risco a vida e atira nos braços das circunstâncias a sorte de um futuro, que possivelmente pode nem vir a acontecer. Assim, a justiça do Reino de Deus não se pratica e nem é experimentada por esses meninos e meninas, filhos do Altíssimo, aos quais esse Reino pertence e para quem foi preparado, por conta das atrocidades provocadas pela ignorância da podre religião, do fanatismo, da intolerância, do desrespeito. A mesma que foi praticada por loucos torcedores do Corinthians em janeiro de 2013, na Bolívia, em uma competição internacional.
A dor não atinge apenas o outro lado do mundo, mas o nosso continente, a nossa nação, as nossas cidades, como recentemente ocorreu em imperatriz há alguns dias, quando um homem estuprou e matou uma criança de doze anos. As barbáries contra crianças se alastram pelas vias da vida, traumatizando, inutilizando, destruindo sonhos, tirando vidas. Aos adultos, Jesus deixou o imperativo para que deixassem as crianças ir de encontro ao reino de paz e justiça, porém a oferta que é feita é de morte e dor, descaso e abandono, sofrimento e melancolia.
A liberdade, pela qual o Filho de Deus lutou e quer estabelecida para as crianças, foi rompida e esquecida pelos adultos, de modo que única possibilidade que se lhes apresentam é via do abandono. O mar de alegria e desapego com as preocupações - que vêm enfermando a sociedade - deu lugar a um banho de sangue, e onde era para vermos a corrida alegre, pelas areias soltas de uma linda praia turca, presenciamos a mais pura exemplificação de que estamos nos direcionando para um caos ainda maior.
A morte que atinge os pequeninos contrasta com a palavra de Jesus. A liberdade que Ele ensinou – deixem vir a mim os pequeninos – cedeu lugar a um "STOP" para a vida, para o sonho, para a alegria, para o futuro. Ao nos depararmos com essas cenas chocantes, que elevemos nosso coração aos céus numa oração de humildade e esperança, nas expectativa de que o Pai, Justo e Santo, tenha misericórdia dos que aqui ficam ainda vivos, diante de tão trágicas atitudes de desamor do ser humano para com ele mesmo.
Jesus nos ensinou, mas não aprendemos. Jesus nos legou o exemplo, mas não entendemos. Jesus nos outorgou a autoridade para estabelecer um reino de justiça e paz, mas não obedecemos. Jesus nos comissionou com grande responsabilidade de cuidar uns dos outros e com mais cuidado ainda dos frágeis e pequeninos, mas não aceitamos essa missão, porque as nossas intransigências, maldades, mesquinharias e vaidades se elevam mais alto em nossos corações, roubando-nos o amor e a submissão a Deus, resultando em cenas como essas.
Que a graça do Pai nos permita não eliminar a vida na sua gênese, mas protegê-la e fazer de uma praia um local de fotos e cliques de sorrisos e alegrias, brincadeiras e castelos, de banhos e corridas, de vislumbres e surpresas, não de morte e dor, como as que estão acontecendo nesse instante.
Oremos ao Pai que nos compadeçamos de nós mesmos. 

By Jahilton Magno, Pai.
03.09.15

Rendição



Boa tarde, dona Vida. Hoje é quarta feira. Ando meio perplexo com os acontecimentos com os quais a humanidade anda construindo. Sim, isso mesmo, a construção de alguns fatos tem me mexido o íntimo e estou perdendo a capacidade de entender o funcionamento das coisas. Sou adulto, e até onde consta a coerência e a naturalidade das coisas, confesso que não estou acostumado com certas anormal
idades - na verdade, anomalias, em meu entendimento. Quando eu era criança, amiga Vida, aprendi a me vestir de alegria e caminhar ladeado pela liberdade e inocência com muita pureza. Os meus olhos não conseguiam ver maldade em tantas coisas. A verdade é que eu interpretava maldade geralmente naquilo que pudesse causar dor em mim ou em outro amigo. Fora isso, não a entendia de outra forma.
Nosso descompromisso com qualquer coisa era algo tão natural, como naturais eram os dias que embalavam nossas vidas. Tudo não passava de pura ingenuidade. Ser criança era viver fatos e atos concernentes somente a essa época. Experiências não encontradas em outra fase da vida. Ser criança era ter a possibilidade de dormir com a ânsia de acordar para fazer do dia seguinte não menos divertido que o anterior. Se possível, até melhor. Ser criança era sorrir de qualquer coisa, uma queda de um amigo, sua própria queda. Ser criança era tomar um puxão de orelha, como resultado de ter feito algo errado, ou por ser teimoso, mas no outro dia fazer de conta que nada aconteceu e ignorar todas as recomendações antes recebidas. Ser criança era cair e arranhar o joelho, chorar, mas, em poucos segundos, levantar-se para a vida.
Não consigo lembrar de uma infância, assim como da minha, de outra forma. Havia um bulício que direcionava simplesmente na celebração da vida. O vigor da época corria nas veias. Os ventos dos sonhos esvoaçavam os cabelos. A adrenalina dos perigos não embotava o desejo das descobertas, de modo que as aventuras se tornavam apenas meras coadjuvantes necessárias a esses momentos. Não era possível desenhar o mundo de uma criança de outro jeito. Pelo menos é assim que pinto o meu.
Mas hoje, aqui e ali, não é este o curso normal das experiências, pois o normal cedeu lugar ao que antes era inadmissível; o sabor da época juvenil foi tragado pela morte; o cheiro de ânsia de vida, esfacela-se na ignorância e na brutalidade de adultos; o brilho dos olhos de ser criança tem se acidentado fatalmente em penhascos de arbitrariedades. O mundo das imaginações (como quando se cria ao se ler um bom livro), fruto de mentes desprovidas de soberba, possível somente nelas, as crianças, afasta-se a cada dia e um abismo gigantesco se apresenta diante delas. O futuro, pior, tem sido posto dentro de uma redoma intransponível, onde o ódio se avizinha e grandes soldados vestidos de incoerência e frieza guardam esse lugar. Impossível não descrever de outra forma.
Ah, minha amiga Vida, essa semana fiquei assombrado com uma criança que se rendeu ao ver uma máquina de fotografar empunhada por um homem. Levantou as mãos e mordeu os lábios de tão grande tensão. Na verdade, não levantou as mãos: levantou apenas o pedido pela vida e rejeitou a morte. Ela viu naquela aproximação o fantasma que a assombrara, o fim de tudo. Suas mãos revelaram a rendição da infância diante da mortalidade que aflige ainda hoje seu país.
Fico pensando, dona Vida, o que será, de um ser pequeno e frágil, que tem a alma como que de uma seda branca, esperando serem gravados os registros da sua história, experimentando sentimentos tão incompatíveis com seu estado psicológico, com a sua idade. Quais histórias gravará na sua existência? As mãos para o alto revelam o descostume com a vida, ao passo que, de forma profunda, uma relação estressante com a guerra e suas atrocidades. As mãos para o alto são o sinônimo do medo e ao mesmo tempo a demonstração de que já não há um ato nem mesmo de fuga, como consequência natural humana. O simples - uma câmera fotográfica - transforma-se em arma, pois na verdade não é o objeto em si que causa isso, mas toda uma construção de experiências mórbidas e dolorosas que tem no adulto o seu agente principal.
Ele, munido de quaisquer parafernálias, torna-se um algoz, e não importa se é uma máquina ou apenas um pau de self, ou uma metralhadora mesmo; para quem já não consegue respirar o mundo infantil com a suavidade que lhe é inerente, quem sabe um braço de boneca pode ser capaz de fazer os olhos serem arregalados e as mãos virem ao alto, numa resposta imediata a qualquer possibilidade de violência. Quem vive o medo vinte e quatro horas por dia, não tem tempo para ser natural e para ver naturalidade nas coisas, porque lhe foram roubados a leveza da vida, o aroma e o sabor da existência. Ela não confunde máquina com arma; ela apenas assimila adulto à morte, adulto à dor, adulto à guerra, adulto à destruição.
Essa rendição, digníssima Vida, é um ato pela misericórdia; é o desnudamento da alma que já está acostumada a viver sob e sobre escombros, tendo despedaçados seus laços familiares mais profundos. Deparar-se com uma câmera talvez seja interpretar aquela instante como último, porque para alguns que conhecia, quando ouviram algo como um click, tiveram um encontro com a morte. Talvez o flash tenha trazido à lembrança o brilho dos rojões de uma noite permeada por bombardeios e tiros.
Não é difícil entender tal reação, quando se toma conhecimento do ambiente e suas particularidades. Mas me abisma, dona Vida, ver todos esses reflexos num ser tão dócil, frágil, pequeno, sem ideia até mesmo da existência. Pena quando não se tem noção da vida porque a morte tomou proporções incompreensíveis e vai plantando suas raízes na alma humana . Experimentar a morte em vida, torna-se portanto uma das maiores atrocidades causadas a um ser humano, mais ainda a uma criança. Pior que experimentar a morte na morte.
Essas mãos, amiga Vida, as interpreto também assim:
"Não atirem, não me matem.
Na verdade, a morte já é viver interpretando qualquer movimento diferente como um pesadelo do qual não posso acordar.
Minhas mãos para cima dizem que já não tenho nada para ser levado. Estou rendido.
Revistem-me e verão que já me desarmei faz tempo.
Desarmei-me de lutar pela vida, de acreditar no futuro, de ver bondade no homem, de compreender porque essa guerra mata e fere tanto.
Estou, mesmo criança, desarmado da inocência e da pureza,
e tudo que consigo perceber é que ainda me resta respirar,
mas não sei por quanto tempo."

01.04.15

By Jahilton Magno

Ele vive




ELE VIVE

O verdadeiro Cristo, no qual acredito, não está mais entre os mortos:
ELE RESSUCITOU.

Se eu não acreditar nisso, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé.

1 Coríntios 15:14

Amor




AMOR


Simplesmente é uma questão de amor: 

amor compreendido, amor correspondido.


Essa relação se estabelece com suavidade, sem agressão, sem barganhas, sem medo ou penitência.  


Assim compreendo minha convicção de resposta ao amor do Pai. 


Não consigo ficar inerte a tão grande prova de amor para comigo. 


É absolutamente impossível. 


São Luís, 09 de Abril de 2015


 By Jahilton Magno

Aroma

AROMA

De repente, um cheiro de algo, lá no tempo deixado, exalou em meu coração. 

Simplesmente fechei os olhos e deixei-me ser conduzido pelas sensações e lembranças.

O coração, então, chorou, a mão ficou gelada, e a temperatura do corpo mudou, suspirei querendo tatear as imagens. 

Ainda fechados os olhos, baixei a cabeça, silente, e peguei-me em soluços. 

O aroma da vida era inconfundível. 

Tinha cheiro de gente, cheiro de mim, cheiro de gente em mim, de mim em gente.  

Era simplesmente uma saudade que se materializava ao cair da noite, assim de leve, sem pretensão, mas espontâneo. 

O passado tem cheiro, idade, temperatura, cor, ri e chora, abraça e aperta, sorri e faz chorar. Desculpem-me os duros, mas não sei viver sem esses vislumbres! 

Se eu não chorar, fico com medo de perder minha humanidade e vê-la engolida pelas durezas do cotidiano.

São Luís, 11 de Abril de 2015

By Jahilton Magno

Identidade



IDENTIDADE
Ei, acorda - ouvi bem longe.Quem é? - perguntei.
Sou eu - respondeu
Eu? - indaguei Sim. Estou aqui... - disse-meTentei levantar, ainda não entendendo nada. Não precisa se levantar - disse-me, acalmando-me.A voz era suave, não estranha, leve, cativante.Quero apenas te dar um abraço - expressou.Aproximou-se. Em mim não havia reações externas. Apenas me tomava um misto de dúvidas e surpresa.Afagou-me com singularidade e a temperatura tinha a textura do amor. A pele trazia um calor de alma. O cheiro... Ele fincava em mim sensações não desconhecidas. Fechei os olhos. Confesso que era de uma agradabilidade aquele momento. A minha preocupação de saber quem era de repente se foi, pois entre a curiosidade e o bem-estar - naquele momento - optei pelo segundo.Vagorosamente foi me soltando. Olhou-me nos olhos, ainda perplexos. Trouxe a mão aos meus lábios.
Não diga nada - alertou-me.Senti-me desamparado das forças naturais de um homem. E o silêncio tomou-me o ser com terna delicadeza.Sou tua companhia constante - começou -. Às vezes revelo-me de dia, outras à noite. Não me importo se estás sozinho ou acompanhado. Não me faz diferença a escola, o trabalho, tua casa, teus amigos, pois sou parte de ti. Você foi capaz de me adotar quando comigo esteve pela primeira vez e chorou. A tua lágrima foi nossa aliança, o teu choro o nosso pacto, a tua dor e alegria nosso segredo. Eu te acompanho, mesmo quando não me sente. Saiba que sou educada, o teu convite é a minha mais grata alegria. Quando quiser andar de mãos dadas em estradas absurdas, intransponíveis, acene, que de pronto venho te ladear.Por fim, quero te dizer que a minha peregrinação contigo se finda quando a tua alma se dessensibilizar para a vida, os fragmentos de outras já forem interpretados como desnecessários e o teu coração não mais arder por construções erguidas há tempos dentro de ti. Neste momento, me ausentarei - foram suas palavras.Mas quem é você? - desesperadamente perguntei-lhe, já vendo despedir-se de mim.SAUDADE... Meu nome é saudade - disse-me com a voz calma e distante.Pus-me quieto.O passado tinha posto em mim seu dna.Viver, também, era carrega-lo.

By Jahilton Magno.
Ps: há momentos que fatias, fragmentos, recortes da vida surgem te ensinando que só é possível ser completo quando as colocamos na ordem certa. Eles têm lugar.
São Luís, 13 de Abril de 2015

João e João

O centro histórico estava muito movimentadoPessoas caminhavam de um lado a outro. A vida ia nesse vaivém necessário e contínuo. Parece que ela não muda, sempre nesse ciclo. 
Olhos nem se cruzavam. Gente parecia nem perceber gente. Médicos, frentistas, advogados, alunos, professores. Toda sorte de pessoas se esbarrava, sem que suas histórias sequer fossem conhecidas. 
João - talvez pedreiro, ou carpinteiro, ou motorista, quem sabe qualquer profissão - parou o passo, olhou no chão, sob a sombra da árvore. Viu um disjuntor. Isso, um disjuntor. Olhou com calma. Fixou um pouco mais, abaixou-se e pegou. Sacudiu com cautela, como quem toma em mãos uma lâmpada mágica em busca de um gênio. Soprou. Tirou a poeira. Pensou se estava boa. Mas não poderia testar. 
Aproveitou para descansar, pois estava exausto e suado. O sol era escaldante. 

Ficou com aquela pequena peça na mão. O que fazer? Pensou estar perdendo tempo. Olhou de um lado a outro e ficou se perguntando se não estava fazendo papel de bobo no meio da rua, instigado por uma pequena peça de plástico e ferro. Finalmente concluiu que não era de nada. Olhou novamente. Mexeu a parte do liga e desliga e escutou certo estalo como se bom estivesse. Sorriu. Mas para que ele levaria para casa uma peça achada no chão? 
Lembrou que ainda tinha um compromisso e que o tempo estava contra ele. Olhou o pequeno objeto. Sorriu. Olhou à frente, deu início a sua caminhada e, de súbito, atirou o fragmento para trás com força. 

Desfez-se a curiosidade. Refez-se a respiração. O calor então diminuíra. 
Caminhou rapidamente. Retomou o rumo. Perdeu-se na multidão e apenas mudou de lugar o material da sua curiosidade. Não lhe valia nada. 
Então, sentado à beira da calçada, outro João, o Ninguém, com fome, catador de lixo, limpador da cidade, ouviu a queda da pequena peça e olhou para ela. Não mirou para lado nenhum - não tinha compromisso com a vergonha nem com a etiqueta. Ele nem era sociedade. Juntou-a. Passou-lhe a mão carinhosamente. 
Carregava nas costas um saco grande, cheio de pedaços de esperança. Limpou a descoberta como quem limpa um quadro, uma obra de arte. Seus olhos brilhavam. Viu futuro. Viu Sorriso. Viu vida. 
Jogou a peça dentro do saco. Levantou-se. Caminhou a passos apressados e largos. Encontrou alguém que tudo que era bom comprava. Mostrou-lhe o achado. Foi avaliado como bom. Ninguém... Ele sorriu. Esbanjou alegria. Recebeu três reais pelo troço. 
João saiu vibrando. Ele sabia porque sorria. 

Correu velozmente. Chegou à padaria. Com toda a fortuna, comprou pão. 
Enfim, em casa. Ninguém.. Ele tinha casa. Tinha família. Tinha quem lhe aguardava, como quem aguarda o papai Noel. Meio sonho, meio real. 
Colocou o pão sobre a mesa. Seu filho lhe abraçou e comeu. João chorou. 
João era feito de carne e osso e era alguém na vida de alguém. Fazia do nada, o alimento e via no nada, uma chance.
By Jahilton Magno
15.02.2015


LIÇÕES DE UM PÉ DE MANGA


Do quintal da minha casa eu vislumbrava um lindo e frondoso pé-de-manga-espada. Todo ano, ele indubitavelmente presenteava meu vizinho com maravilhosas e suculentas mangas. A seu tempo, a mangueira ficava imponentemente, carregada de frutos que davam água na boca. 
Lembro de idos tempos, em que, no período oportuno, alegrava-me ver que as flores exibiam singular beleza. Essa aparição vinha adornada da presença de muitos insetos que se alimentavam ali, com particularidade indizível. Sei que parece um dos fenômenos mais naturais e corriqueiros da vida, mas injetava dentro em mim grato assombro, de modo que era impossível deixar de perceber. O problema é que a correria cotidiana às vezes acaba nos roubando a capacidade de perceber o leve, mas notório desenrolar da vida, com suas nuanças, dotada de tão grande propriedade. 
Essa constatação do brilho das flores me enchia já da certeza de que o melhor momento estava chegando: colher as mangas. A manga-espada, aqui afirmo, é a melhor de todas. A sua docilidade é ímpar; sua textura algo não encontrado em outra; o seu cheiro, indiscutivelmente incomparável.
Quando menino, tinha a mania de levar comigo a nossa 'farinha d'água', em saco, para cima de pés de manga espada, e lá em cima, saciava tanto a fome física quanto a psicológica, pois era um tormento vê-las maduras lá no alto e saber que aquele gosto só poderia ser sentido uma vez por ano, em época específica. 
Portanto, em mim, existe todo um deslumbramento diante de um pé-de-manga-espada, pois ele me remete a tempos passados e vividos com extrema profundidade, causando saudades salutares, lembranças agradáveis de sabores nunca esquecidos, de cheiros nunca extintos em minha mente. 
Toda vez que eu olhava essa mangueira ao fundo do quintal da minha casa, esse êxtase me abraçava, envolvia-me apertadamente e sussurrava em meus ouvidos a canção da estação. Minha mente se embrenhava com a sensação gostosa do sabor de um bom pedaço, não cortado com faca, mas selvagemente arrancando no dente, primeiro a casca e tão logo me melecando com a maciez da sua polpa. 
Essa mangueira fazia isso todos os anos. Suas flores era como se fossem seu sorriso que gerava em mim riso também; seus frutos era como se fossem suas palavras de cuidado para comigo; seus grandes galhos era como se fossem seus braços a mim estendidos; suas folhas, a certeza da renovação contínua do seu compromisso de perpetuar aquela rotina anual, a fim de me abençoar. Desculpe-me se consigo ver bênção e presença de Deus em uma mangueira. Quem quiser atirar a primeira pedra, fique à vontade, pois não sou capaz de mudar paradigmas se, antes de tudo, não existe fé que reconhece a graça, o cuidado, a presença e a ação conspirativa do Eterno no ar, na água, nas plantas, nos animais, nas flores, e em tudo que é tão aparentemente corriqueiro, mas tão fundamental à vida. 
O importante que independente da capacidade obtida ou não de se debruçar diante de tais fatos, a mangueira do meu vizinho, que eu adotara, era fiel não a mim, mas à sua natureza. Ela nasceu para ser mangueira e como tal, deveria todos os anos, com muita chuva ou com pouca chuva, com verão muito quente ou não, com cúmulos, ou nimbos; não importa, ela cumpria seu papel initerruptamente todos os anos na estação, com o mesmo charme e com o mesmo ritual: mudança de folhas, novas flores e a certeza do fruto. 
O pé-de-manga-espada era de um comportamento fenomenal: não guardava rancor do inverno muito rigoroso, nem mesmo do verão doloroso e seco; ele não se irritava com a volatilidade do tempo; se o sol lhe sorrisse, bem estava; se a chuva cerrasse o ventre, bem também estava; se os ventos impiedosamente lhe castigavam, ele, firme, mantinha seu posto; se a noite lhe abraçasse com gelidez, ainda assim ele se impunha a ser simplesmente o que veio a ser: PÉ-DE-MANGA-ESPADA; se as estações mudassem e trouxessem consigo as mudanças, sua atitude era de apenas se adaptar, mas nunca mudava sua natureza; quando lhe catapultavam paus e pedras, embora vendo pedaços seus sendo arrancados, não se envergava da sua postura de ser mangueira. Ano a ano ela me ensinava sobre natureza, sobre fidelidade e mais ainda sobre o gosto da sua produção. Ela estava ali, cem por cento ativa, apesar todos os inimigos e algozes. 
Um dia acordei e não vi mais folhas, nem galhos, nem sombra, nem beleza, nem vida, nem flores, nem frutos. Aquilo me chamou a atenção. Deduzi, dolorosamente, que certamente o proprietário da casa tenha se apossado talvez de um facão, com o intuito único não sei se de podar ou mesmo de dar um fim trágico àquele árvore. Certo que não mais vi sua imponência, não senti mais o alívio da sua sombra em escaldantes tardes do verão da Ilha do Amor. 
No entanto, passado não sei quanto tempo depois, porque a cronologia sobre sua ausência não cogitei registrar, vi novamente galhos, flores Via a vida que outrora tinha julgado nunca mais veria novamente. Percebi, então, que ainda havia ali uma mangueira, e que não lhe foi tirado o direito à vida, mas apenas lhe foi dada a chance de continuar, agora com cortes, com marcas profundamente inesquecíveis, com castrações dolorosas, com experiências traumáticas. Foi-lhe permitido viver, embora carregasse na sua experiência a triste certeza de um dia ter encontrado um objeto cortante na mão de alguém. A sua história nunca mais seria a mesma. 
Quando chegou a estação das frutas, ah como eu aguardava esse momento e queria saber a sua reação a tudo que viveu! Pensei comigo mesmo que ela não seria capaz de gerar mais vida, apesar de estar viva. 
Enganei-me alarmantemente. Fui convidado a conhecer velhos vizinhos, com os quais não havia tido contato pelas últimas estações. Os insetos bailavam envolvendo o PÉ-DE-MANGA-ESPADA, como se dançassem uma clássica valsa de Beethoven ou Chopin, idealizada simplesmente para aquele ensejo. O riso me foi devolvido, pois ele foi presente daquela árvore. Vi a vida gerando vida; vi a vida se renovando e trazendo novidades a quem se aproximava. 
Mais um pouco e vi mangas. Vi a fidelidade, embora dores; vi o cuidado dela comigo, ainda que nalgum tempo possa ter sido cerceada de tal atitude. Entendi que, embora não me tenha abençoado com a dádiva do fruto, fê-lo sendo corajosa, perseverante, arrancando da terra, do clima, do sol, da lua, do vento e de cada estação as forças necessárias para voltar a ser o que sempre foi. E sussurrou-me aos ouvidos com carinho e delicadeza: NASCI PÉ-DE-MANGA-ESPADA e nada poderá mudar a minha natureza, nem sol, nem chuva, nem vento, nem calor ou frio; nem a maldade de quem arrancou os galhos e as folhas e tenha me diminuído; quem me culminou a grandeza externa, nunca arrancou de mim a essência, pois está dentro em mim; nada poderá tirar a minha natureza, pois vim a este mundo para ser isso. E todo o tempo que estive ausente, sem grandes galhos, muitas folhas, e muitos frutos, por todo este tempo eu apenas fortalecia em mim a grandeza da minha vocação. Nasci para dar frutos e nem mesmo quando me tirarem a vida sei que ainda estarei dando frutos, pois deixei outros frutos que a tempo certo vão trazer também a minha natureza e a minha identidade. Não escolhi nascer mangueira: nasci mangueira.
Peguei mais uma manga. Comi. Aprendi as lições do PÉ-DE-MANGA-ESPADA.
By Jahilton Magno

A SARÇA ARDENTE - ALGUMAS LIÇÕES



FAZIA TEMPO QUE EU NÃO ESCREVIA EM MEIO ÀS LÁGRIMAS  



Será que Moisés, com mais de quarenta anos nunca tinha visto uma sarça sendo consumida pelo fogo? Creio certamente que sim. Havia visto não apenas uma, nem duas, mas talvez incontáveis vezes. Entretanto, nunca tinha visto Deus numa sarça em chamas. Quando a graça se faz presente, a própria presença do Pai, o que é tão frívolo e tão corriqueiro toma nuanças do eterno, há celestialidade, há vida. Uma simples sarça é agora um elo entre o profano (eu) e o sagrado (Deus). Quando Deus se faz presente, ou mesmo quando nos deixamos perceber da Sua presença, o não notável, toma formas de obra de arte, o inaudível, se assenhora de sinfonia, o invisível, se apresenta com pinceladas de artista, com ares de poesia.  

A simples sarça, tão comum no deserto do oriente, não apenas se desmancha no calor tão escaldante da região, mas agora queima, porque em Deus o óbvio se desconserta, e as páginas da história de vida se re-encaminham na direção do alto. A simplicidade se transforma em espetáculo, não porque muda, porque é vista por um olhar mudado. As perspectivas se re-alinham, e onde não se via fogo, agora há uma chama eterna de um Deus Eterno; onde haviam palhas, areia, calor, pedras, Deus re-escreve história e dá palavras de direção a um homem e lhe diz: VOU REEDITAR A SUA VIDA. 
A graça nos alcança em nosso cosmos pessoal girando na sua normalidade, dentro das nossas lutas, das nossas decepções, das nossas separações, dos nossos desapontamentos, dentro do nosso trabalho, dentro da nossa família, dentro daquela competição, dentro das nossas guerras, dentro da nossa mais corriqueiras atividades, para nos mostrar que em Deus o normal se veste da GRANDEZA DIVINA, e toma proporções inimagináveis, porque o que Ele prepara está além do que pedimos ou pensamos.  
O Espírito do Senhor revela mistérios onde a humanidade apenas vê banalidade. Os contornos da obra que Deus pinta não passam despercebidos. Mas podem estar onde eu posso não estar vendo nada mais que o insignificante. Uma sarça pode não ter proveito nenhum em minha vida, mas dela pode estar vindo a graça, a Palavra de Deus. Moisés, Moisés, Moisés. Da sarça veio a VOZ MAIS MAJESTOSA DE TODOS OS MUNDOS. Da sarça veio a PALAVRA QUE CRIOU MUNDOS, QUE ESTABELECEU CÉU E TERRA E QUE ME ESTABELECEU ANTES DA FUNDAÇÃO DOS TEMPOS.  
A sarça é a passagem para que eu descubra que há um Deus onde eu não vejo, que há irremediavelmente possibilidades criadas por um Ser Amoroso, que não se trancafia em moldes criados por mãos humanas, não se engessa na panela de fórmulas matemáticas, físicas, administrativas com as quais a agenda humana tem a pobre idéia de atirar ao alto, em suas mais pobres tentativas de oração.  
A sarça re-elabora minha consciência do sagrado e do terreno, pois me ensina que HÁ SAGRADO NO TERRESTRE, porque este traz a graça do CRIADOR. O terrestre exala o seu perfume, apresenta Sua majestade, Seu poder, expõe partes dos Seus atributos e choca-me com a infeliz idéia que se apoderou de mim ao longo da vida, de não atentar para as mais simples exuberâncias de Deus
O meu mundo vai se desmontando com essa descoberta, pois o lógico agora vai se abrindo para o novo que é, sim, tão mais lógico, profundo e antigo quanto quaisquer registros possíveis acerca da criação do mundo e da vida. É a esta viagem que o GRACIOSO DEUS está me convidando a embarcar: a viagem pela excelência que há no comum; à excelência que existe numa simples poeira, num simples, mato perdido na vida, numa simples sarça perambulando pela rotina da minha caminhada, numa simples viagem feita pelas esferas do globo. O convite se dá em meio aos meus afazeres mais normais, como o foi a Moisés que estava cuidando do seu simples rebanho. É nesse ínterim que se descortina o convite: VENHA PROVAR DA ÁGUA DA VIDA. Venha BEBER DA FONTE QUE NÃO SECA. Venha se re-descobrir e verdadeiramente se encontrar, mesmo depois de tantas decepções e tantas tentativas frustradas. Venha ver beleza onde você só consegue encontrar normalidade. Venha se apaixonar, mesmo depois de tantos desapontamentos. Venha amar, mesmo você que não consegue conceber um fragmentos sequer, uma centelha ainda de amor.  
O convite é para repaginar o roteiro. O convite é para estabelecer um divisor de águas que te ensinam que há graça, até mesmo onde imagina apenas desgraça. O convite se configura na borda do dia, bem cedo, quando você levanta para a sua lida diária. O convite se efetua, quando as dores são tão fundas e não se consegue ver nesse ensejo nada mais que tristeza e lágrima. 
O convite é vinde a mim os cansados e sobrecarregados, pois há alívio. O convite é para ver graça, para se relacionar com o Criador da Graça, com a própria GRAÇA em pessoa.  
Que a sarça se revele, e dela venha uma PALAVRA DIRETAMENTE A VOCÊ.  
Que o Senhor te abençoe grandemente. E que Ele possa ter falado ao seu coração.

Naquele que me ensina que nos mais simples acontecimentos podem existir maravilhas eternas.

São Luís, 07.09.14

Jahilton Magno. 




MEMÓRIAS

Acordei bem cedo, muito mais que o normal. Era sábado.  Verdade é que durante os dias da semana, tinha uma preguiça aguçada para levantar, tomar banho e me arrumar para ir à escola. Nem sei se fui eu que despertei abruptamente ou se era a magia da época dos papagaios que me abriu os olhos, tomou-me pelos braços e ergueu-me em direção à porta dos fundos da casa.
A reação instintiva que tive foi olhar para os céus. Creio que eram cinco e meia da manhã mais ou menos. Vi o dia acordando e me dando bom dia. Sorri, e uma sensação de dia bom envolveu-me a alma naquele instante. Arregalei os olhos nas nuvens a busquei aquelas que denominavam que o dia seria ensolarado, bom para minhas investidas. Estudei cada nuvem na busca primeira dos Nimbos e dos Estratos. Ah como eu sorri por não vê-las tão cedo! Queria mesmo que nenhuma sequer me acompanhasse naquele dia. A presença do sol era suficiente para fazer o meu dia feliz. E eu queria ser feliz naquele dia.
Então, caleidoscópica e milimetricamente fui pesquisando a imensidão do céu, assim, de dia mesmo, como quem busca a felicidade. Naquele instante eu era um exímio meteorologista, sem diplomas, sem cadeiras complexas sobre ar, atmosfera, nunca entendendo o que era linha do equador ou os trópicos. Vasculhei cada palmo do céu, e a manhã, naquele efêmero instante, era minha cúmplice. Os meus olhos brilharam, o sorriso me apertou o coração. Consegui sonhar, ali, meio acordado, meio dormindo, com a pureza que toma qualquer criança da minha idade. E eu tinha uns dez anos.

Ao final da minha profunda e minuciosa vistoria aérea, consegui arrumar mais razões para encantar-me com aquele pedaço inicial de dia: vislumbrei uns Cúmulos e uns Cirros. As nuvens altas e esparsas, como que paradas, faziam estáticos meus olhos. Olhei para as palhas dos coqueiros dos vizinhos, buscando que o vento movimentasse cada uma como se fosse sob minha ordem. Senti o desejo de ser senhor dos ventos e impor-lhes direção e velocidade. A minha vontade saltava aceleradamente e o coração batia em igual  compasso . Parece que agora eu tinha acordado definitivamente. Tinha certeza de que seria um dia inesquecível. Seria um dia diferente. Mas em minha mente, não sabia nem definir esses adjetivos. Na verdade só queria que o dia fosse bom para o meu propósito de criança.
Desapeguei-me do instante cientista-pesquisador do tempo, corri para o quarto. Eu esbanjava a titularidade de ser criança. Tomei uma toalha e corri ao quintal da casa, a fim de tomar um banho à beira do tanque. A água estava fria e esfriou-me o corpo todo, despertando-me de alguns resquícios de sonolência que ainda insistiam em teimar me acompanhar naquele momento. Tudo foi rápido e creio que me esqueci de me lavar melhor com certeza. Estava mais preocupado em terminar logo tudo aquilo e ir à rua o mais rápido possível. Tinha compromissos com a linha, o papagaio, o cerol, o algodão e o vento. Todos cúmplices dos meus devaneios.
Terminei, enfim, aquele necessário ritual.
– Quero saber qual a razão do senhor acordar tão cedo hoje? Resolveu levantar junto com as galinhas? – era minha mãe, certamente, admirando-se das horas que marcavam o relógio e eu correndo para o quintal tomar banho. Essa anormalidade causou nela espanto.
– Mãe, hoje vai fazer um belo dia para empinar papagaios. Hoje é sábado.
– Queria que todos os outros dias da semana você fizesse do mesmo jeito pra ir pra escola. Pelo contrário: todo dia é uma penitência para pra acordar e mais ainda pra se arrumar.
– Ah, mãe, hoje é sábado. Vumbora esquecer esse negócio de escola.
Tomei café com muito mais vontade e apetite que os dias normais. Em minha mente, já tinha um plano traçado de não fazer mais nenhuma refeição. O meu dia era céu e terra numa só proporção.  Não haveria perda de tempo com comida.
Fui correndo ao meu quarto, peguei um dinheiro que havia guardado durante a semana e corri ao comércio mais perto. Comprei algodão. Os papagaios já estavam prontos. Fiz todos durante a semana. Na sexta à noite já havia separado uns bons vidros para o cerol – fundos de garrafas brancas, fragmentos de vidros de televisão –, pois no sábado não queria perder mais tempo com nada. Antecipar, em minha mente de criança, já era julgado como um ato de inteligência. Antecipar era perceber situações e presentear-se da ausência de preocupações contornáveis e evitáveis. Essa lição já aprendera empinando papagaios.
Outrora, não fazíamos os rabos dos papagaios – ou rabiolas, como alguns chamavam – com plásticos, como hoje vejo que as crianças fazem. Algumas coisas eram tão diferentes, mas quando olho hoje uma criança com os olhos brilhando, mirando os céus, seguindo o balé das pipas, recordo-me de cada detalhe, carinhosamente guardado em minha mente, relembro cada instante, eternizado em meu coração, de quando era criança.
Estiquei um pedaço de linha, amarrada ao portão de casa e comecei a tecer, com ela e o algodão, um rabo para os meus papagaios já prontos. Cada fragmento era posto com carinho, delicadeza, perícia e articulada paciência, Os pequenos pedaços brancos adornavam a linha, em espaços quase perfeitos, e tudo ia tomando forma. Era uma mistura de arte e engenharia, de teoria e prática.
Era muito cedo e o calor do sol não se sentia ainda. O vento, esse mesmo também não havia sinalizado sua aparição, como se esperava. Mas isso não esfriava o ímpeto que efervescia em minha mente. Eu respirava cada instante com ardente volúpia. Entre uma colocada de algodão na linha e outra, o olhar fugia em viagem aos céus, ao sol, às nuvens. Meu espírito de exímio conhecedor e mestre do tempo ainda permanecia nos olhos tesos, direcionados o alto. Os minutos eram divididos entre a linha e algodão, entre céu e terra.
A liberdade de viajar sem sair do lugar– e quem disse que eu queria sair mesmo? – exalavam, naquele momento, no espaço, a tônica da junção homem e natureza, ou melhor, criança e natureza e pincelavam, assim, os painéis mais naturais que podem ser aguardados desse encontro, desse casamento, desse abraço.
Todo esse ensejo se debruçava abaixo do canto matinal dos pássaros. Eles apareceram, neste dia, mais numerosos que no dia anterior. Talvez em razão da chuva que resolveu rascunhar a sexta feira com suas cinzas nuvens, seu clima mais frio e sua pálida máscara, escondendo o sol.


To Be Continued
            By Jahilton Magno                                          21.03.14










MENOS MIMOS E MAIS VIDA


MENOS MIMOS E MAIS VIDA 
Nascer, crescer e morrer. Assim podemos definir e encerrar a experiência de existência do ser humano. O nascimento é, em si, um dos mais sublimes acontecimentos, dentro dos incontáveis nos quais o homem tem a experiência de estar inserido.  
Crescer é o longo processo por que temos que caminhar, e, nele, vamos nos descobrindo e encontrando-nos  ou desencontrando. Na estrada do crescimento, deparamo-nos com as alegrias da vida, ora com as decepções, afortunamo-nos por vezes, ora encontramo-nos com os algozes. Essa imutável realidade vai gerando em nós o conhecimento do que verdadeiramente é a vida e de que substância na verdade ela é formada.  
Morrer é o ato final. É o ato que não praticamos.  Somos o ator principal, mas na verdade a única atitude que de nós se exige é estar vivo. É desconexo, talvez, mas é a realidade. Morrer está na contramão da nossa decisão – se bem que é verdade que em muitos casos parece que não, mas isso agora não vou discutir. Morrer é o ponto final da história, no que diz respeito à existência da matéria no plano do que se concebe na visão do palpável, tangível, mensurável, visível, possível e realizável. Creio assim, e tenho minhas convicções para assim pensar. Mas não quero tratar sobre isso agora, quem sabe num outro texto neste blog.  
Apenas quis discorrer sobre estes três verbos, nos quais, indissociavelmente, estão atrelados a nossa vida, o que construímos, o que pensamos, ou acreditamos. No entanto, quero focar no verbo crescer. Sem buscar etimologicamente o sentido da palavra, quando pensamos em ‘crescer’, vem-nos à memoria  creio  progresso, avanço, mudança, transformações, etc.. A vida nos exige naturalmente isso. Crescer, invariavelmente, direciona-nos a novas realidadesdesprendimento de antigas práticas, encontro com descobertas, dolorosas mas necessárias confrontações, quebra de paradigmas, desassociação com o já estabelecido ou instituído. Enfim, pensar em crescer, é pensar em rupturas.  É impossível fugir a isso. 
Mas, ao longo da vida, vamos identificando, muitas vezes em nós, uma direção totalmente contrária a essa naturalidade na qual a nossa existência tem que seguir. Por quê? Talvez poderíamos elencar aqui uma série de questões a serem discutidas e que exigiriam muito tempo de nós. Não obstante, atrevo-me a descrever apenas uma com a qual creio evidenciar de forma mais contundente essa doença: CONVENIÊNCIA. Isso mesmo, é conveniente ficar na zona de conforto e não se arriscar a ter que aprender e mudar. É o que chamo de paradigma do conformismo, onde não há crescimento, não há progresso, não há rupturas e consequentemente não há mudanças nem superficiais nem estruturais. Ou seja, um verdadeiro estado de estagnação e letargia. 
Podemos aplicar isso à várias áreas da vida. Mas quero focar aqui mais precisamente em nosso interior, no que diz respeito aos nossos valores. Porque quando mexemos com nossos valores, estamos tocando nas convicções nas quais alicerçamos a nossa vida e a nossa conduta. Os valores regem a nossa vida; são as nossas ideologias, filosofias, tradições, experiências que nos guiam. Tudo isso conta. Verdadeiramente quando agimos de forma 'x'ou 'y' estamos externando nossos valores e padrões. No momento das atitudes, conhecemos os dogmas que estão arraigados à nossa formação interior.  
Por isso, ouso dizer que existem pessoas que não querem crescer de maneira nenhuma, e dão-se à inconveniente via da bajulação e da companhia ininterrupta dos que os cercam. Seus traços parecem ser de eternas crianças, mimadas pelos mais velhos – e, às vezes, até mesmo pelos mais novos –, pois não se veem desapropriados do luxo e do conforto de serem cuidados por outro ser. Infelizmente, assim é, porque tais seres humanos não arriscam viver a trilha do crescimento, da vida, da possibilidade de quebrar a cara para aprender, ou de se sentir só em determinados momentos da sua existência, momentos esses que são necessários para a construção do caráter e da personalidade. Os valores que carregam dentro em si gladiam-se com a realidade que os cerca, de modo que  é mais aconchegante permanecer onde se está que se aventurar ao desconhecido, ao improvável, ao incerto. 
Mentes assim, sepultam em si mesmas as suas almas. Engessam as fronteiras que se abrem para a METANOIA (μετανοεῖν) – mudança de pensamento, de ideia – da qual o apóstolo Paulo fala no novo testamento. Nunca ocorre, na existência dessas pessoas, transformações que são esperadas e dignas. O equilíbrio se distancia, de modo que as decisões que tomam demonstram total incapacidade de evidenciar crescimento. 
O caminho do crescimento, no entanto, exige envolvimento com a vida, exige andar o caminho da oração, buscar a sensibilidade que vem do alto para chorar com os que choram e sorrir com os que sorriem. Crescimento é sinônimo do abraço com a vida que percebe pecados, mas que não concebe farisaísmo; crescimento permite a vida de perdão, e a certeza que laços podem ser reconstruídos; crescimento sinaliza mudanças de rotas, quebra de paradigmas, sendo que uma verdadeira teologia brota de corações piedosos e sedentos de conhecimento da pessoa de Deus.  


Enfim, o de que precisamos é de envolvimento com a vida; é necessário crescer, envolver-se em comunhão, sem medo e com transparência, de modo que a confrontação seja em amor e humildade, resultando em uma comunidade sadia e refletindo a graça e o milagre de vidas transformadas em Cristo. Crescimento é sinônimo de amadurecimento e somente quem anela galgar uma profunda relação de intimidade com o Salvador se permite direcionar-se assim. Ter tal atitude evidencia em nós crescimento, e consequentemente nos guarda da permissividade de ser mimado e garante-nos encontro com a maturidade. Necessitamos de mais vida e menos mimo., rompendo com a conveniência da zona de conforto que cada um de nós tem. É vida de Deus de que precisamos!  
Busquemos isso em Deus. 

NEle, que nos oferece crescimento e transformação na alma como prova do seu grande poder milagroso. 
Jahilton Magno 
São Luís,