A SARÇA ARDENTE - ALGUMAS LIÇÕES



FAZIA TEMPO QUE EU NÃO ESCREVIA EM MEIO ÀS LÁGRIMAS  



Será que Moisés, com mais de quarenta anos nunca tinha visto uma sarça sendo consumida pelo fogo? Creio certamente que sim. Havia visto não apenas uma, nem duas, mas talvez incontáveis vezes. Entretanto, nunca tinha visto Deus numa sarça em chamas. Quando a graça se faz presente, a própria presença do Pai, o que é tão frívolo e tão corriqueiro toma nuanças do eterno, há celestialidade, há vida. Uma simples sarça é agora um elo entre o profano (eu) e o sagrado (Deus). Quando Deus se faz presente, ou mesmo quando nos deixamos perceber da Sua presença, o não notável, toma formas de obra de arte, o inaudível, se assenhora de sinfonia, o invisível, se apresenta com pinceladas de artista, com ares de poesia.  

A simples sarça, tão comum no deserto do oriente, não apenas se desmancha no calor tão escaldante da região, mas agora queima, porque em Deus o óbvio se desconserta, e as páginas da história de vida se re-encaminham na direção do alto. A simplicidade se transforma em espetáculo, não porque muda, porque é vista por um olhar mudado. As perspectivas se re-alinham, e onde não se via fogo, agora há uma chama eterna de um Deus Eterno; onde haviam palhas, areia, calor, pedras, Deus re-escreve história e dá palavras de direção a um homem e lhe diz: VOU REEDITAR A SUA VIDA. 
A graça nos alcança em nosso cosmos pessoal girando na sua normalidade, dentro das nossas lutas, das nossas decepções, das nossas separações, dos nossos desapontamentos, dentro do nosso trabalho, dentro da nossa família, dentro daquela competição, dentro das nossas guerras, dentro da nossa mais corriqueiras atividades, para nos mostrar que em Deus o normal se veste da GRANDEZA DIVINA, e toma proporções inimagináveis, porque o que Ele prepara está além do que pedimos ou pensamos.  
O Espírito do Senhor revela mistérios onde a humanidade apenas vê banalidade. Os contornos da obra que Deus pinta não passam despercebidos. Mas podem estar onde eu posso não estar vendo nada mais que o insignificante. Uma sarça pode não ter proveito nenhum em minha vida, mas dela pode estar vindo a graça, a Palavra de Deus. Moisés, Moisés, Moisés. Da sarça veio a VOZ MAIS MAJESTOSA DE TODOS OS MUNDOS. Da sarça veio a PALAVRA QUE CRIOU MUNDOS, QUE ESTABELECEU CÉU E TERRA E QUE ME ESTABELECEU ANTES DA FUNDAÇÃO DOS TEMPOS.  
A sarça é a passagem para que eu descubra que há um Deus onde eu não vejo, que há irremediavelmente possibilidades criadas por um Ser Amoroso, que não se trancafia em moldes criados por mãos humanas, não se engessa na panela de fórmulas matemáticas, físicas, administrativas com as quais a agenda humana tem a pobre idéia de atirar ao alto, em suas mais pobres tentativas de oração.  
A sarça re-elabora minha consciência do sagrado e do terreno, pois me ensina que HÁ SAGRADO NO TERRESTRE, porque este traz a graça do CRIADOR. O terrestre exala o seu perfume, apresenta Sua majestade, Seu poder, expõe partes dos Seus atributos e choca-me com a infeliz idéia que se apoderou de mim ao longo da vida, de não atentar para as mais simples exuberâncias de Deus
O meu mundo vai se desmontando com essa descoberta, pois o lógico agora vai se abrindo para o novo que é, sim, tão mais lógico, profundo e antigo quanto quaisquer registros possíveis acerca da criação do mundo e da vida. É a esta viagem que o GRACIOSO DEUS está me convidando a embarcar: a viagem pela excelência que há no comum; à excelência que existe numa simples poeira, num simples, mato perdido na vida, numa simples sarça perambulando pela rotina da minha caminhada, numa simples viagem feita pelas esferas do globo. O convite se dá em meio aos meus afazeres mais normais, como o foi a Moisés que estava cuidando do seu simples rebanho. É nesse ínterim que se descortina o convite: VENHA PROVAR DA ÁGUA DA VIDA. Venha BEBER DA FONTE QUE NÃO SECA. Venha se re-descobrir e verdadeiramente se encontrar, mesmo depois de tantas decepções e tantas tentativas frustradas. Venha ver beleza onde você só consegue encontrar normalidade. Venha se apaixonar, mesmo depois de tantos desapontamentos. Venha amar, mesmo você que não consegue conceber um fragmentos sequer, uma centelha ainda de amor.  
O convite é para repaginar o roteiro. O convite é para estabelecer um divisor de águas que te ensinam que há graça, até mesmo onde imagina apenas desgraça. O convite se configura na borda do dia, bem cedo, quando você levanta para a sua lida diária. O convite se efetua, quando as dores são tão fundas e não se consegue ver nesse ensejo nada mais que tristeza e lágrima. 
O convite é vinde a mim os cansados e sobrecarregados, pois há alívio. O convite é para ver graça, para se relacionar com o Criador da Graça, com a própria GRAÇA em pessoa.  
Que a sarça se revele, e dela venha uma PALAVRA DIRETAMENTE A VOCÊ.  
Que o Senhor te abençoe grandemente. E que Ele possa ter falado ao seu coração.

Naquele que me ensina que nos mais simples acontecimentos podem existir maravilhas eternas.

São Luís, 07.09.14

Jahilton Magno. 




MEMÓRIAS

Acordei bem cedo, muito mais que o normal. Era sábado.  Verdade é que durante os dias da semana, tinha uma preguiça aguçada para levantar, tomar banho e me arrumar para ir à escola. Nem sei se fui eu que despertei abruptamente ou se era a magia da época dos papagaios que me abriu os olhos, tomou-me pelos braços e ergueu-me em direção à porta dos fundos da casa.
A reação instintiva que tive foi olhar para os céus. Creio que eram cinco e meia da manhã mais ou menos. Vi o dia acordando e me dando bom dia. Sorri, e uma sensação de dia bom envolveu-me a alma naquele instante. Arregalei os olhos nas nuvens a busquei aquelas que denominavam que o dia seria ensolarado, bom para minhas investidas. Estudei cada nuvem na busca primeira dos Nimbos e dos Estratos. Ah como eu sorri por não vê-las tão cedo! Queria mesmo que nenhuma sequer me acompanhasse naquele dia. A presença do sol era suficiente para fazer o meu dia feliz. E eu queria ser feliz naquele dia.
Então, caleidoscópica e milimetricamente fui pesquisando a imensidão do céu, assim, de dia mesmo, como quem busca a felicidade. Naquele instante eu era um exímio meteorologista, sem diplomas, sem cadeiras complexas sobre ar, atmosfera, nunca entendendo o que era linha do equador ou os trópicos. Vasculhei cada palmo do céu, e a manhã, naquele efêmero instante, era minha cúmplice. Os meus olhos brilharam, o sorriso me apertou o coração. Consegui sonhar, ali, meio acordado, meio dormindo, com a pureza que toma qualquer criança da minha idade. E eu tinha uns dez anos.

Ao final da minha profunda e minuciosa vistoria aérea, consegui arrumar mais razões para encantar-me com aquele pedaço inicial de dia: vislumbrei uns Cúmulos e uns Cirros. As nuvens altas e esparsas, como que paradas, faziam estáticos meus olhos. Olhei para as palhas dos coqueiros dos vizinhos, buscando que o vento movimentasse cada uma como se fosse sob minha ordem. Senti o desejo de ser senhor dos ventos e impor-lhes direção e velocidade. A minha vontade saltava aceleradamente e o coração batia em igual  compasso . Parece que agora eu tinha acordado definitivamente. Tinha certeza de que seria um dia inesquecível. Seria um dia diferente. Mas em minha mente, não sabia nem definir esses adjetivos. Na verdade só queria que o dia fosse bom para o meu propósito de criança.
Desapeguei-me do instante cientista-pesquisador do tempo, corri para o quarto. Eu esbanjava a titularidade de ser criança. Tomei uma toalha e corri ao quintal da casa, a fim de tomar um banho à beira do tanque. A água estava fria e esfriou-me o corpo todo, despertando-me de alguns resquícios de sonolência que ainda insistiam em teimar me acompanhar naquele momento. Tudo foi rápido e creio que me esqueci de me lavar melhor com certeza. Estava mais preocupado em terminar logo tudo aquilo e ir à rua o mais rápido possível. Tinha compromissos com a linha, o papagaio, o cerol, o algodão e o vento. Todos cúmplices dos meus devaneios.
Terminei, enfim, aquele necessário ritual.
– Quero saber qual a razão do senhor acordar tão cedo hoje? Resolveu levantar junto com as galinhas? – era minha mãe, certamente, admirando-se das horas que marcavam o relógio e eu correndo para o quintal tomar banho. Essa anormalidade causou nela espanto.
– Mãe, hoje vai fazer um belo dia para empinar papagaios. Hoje é sábado.
– Queria que todos os outros dias da semana você fizesse do mesmo jeito pra ir pra escola. Pelo contrário: todo dia é uma penitência para pra acordar e mais ainda pra se arrumar.
– Ah, mãe, hoje é sábado. Vumbora esquecer esse negócio de escola.
Tomei café com muito mais vontade e apetite que os dias normais. Em minha mente, já tinha um plano traçado de não fazer mais nenhuma refeição. O meu dia era céu e terra numa só proporção.  Não haveria perda de tempo com comida.
Fui correndo ao meu quarto, peguei um dinheiro que havia guardado durante a semana e corri ao comércio mais perto. Comprei algodão. Os papagaios já estavam prontos. Fiz todos durante a semana. Na sexta à noite já havia separado uns bons vidros para o cerol – fundos de garrafas brancas, fragmentos de vidros de televisão –, pois no sábado não queria perder mais tempo com nada. Antecipar, em minha mente de criança, já era julgado como um ato de inteligência. Antecipar era perceber situações e presentear-se da ausência de preocupações contornáveis e evitáveis. Essa lição já aprendera empinando papagaios.
Outrora, não fazíamos os rabos dos papagaios – ou rabiolas, como alguns chamavam – com plásticos, como hoje vejo que as crianças fazem. Algumas coisas eram tão diferentes, mas quando olho hoje uma criança com os olhos brilhando, mirando os céus, seguindo o balé das pipas, recordo-me de cada detalhe, carinhosamente guardado em minha mente, relembro cada instante, eternizado em meu coração, de quando era criança.
Estiquei um pedaço de linha, amarrada ao portão de casa e comecei a tecer, com ela e o algodão, um rabo para os meus papagaios já prontos. Cada fragmento era posto com carinho, delicadeza, perícia e articulada paciência, Os pequenos pedaços brancos adornavam a linha, em espaços quase perfeitos, e tudo ia tomando forma. Era uma mistura de arte e engenharia, de teoria e prática.
Era muito cedo e o calor do sol não se sentia ainda. O vento, esse mesmo também não havia sinalizado sua aparição, como se esperava. Mas isso não esfriava o ímpeto que efervescia em minha mente. Eu respirava cada instante com ardente volúpia. Entre uma colocada de algodão na linha e outra, o olhar fugia em viagem aos céus, ao sol, às nuvens. Meu espírito de exímio conhecedor e mestre do tempo ainda permanecia nos olhos tesos, direcionados o alto. Os minutos eram divididos entre a linha e algodão, entre céu e terra.
A liberdade de viajar sem sair do lugar– e quem disse que eu queria sair mesmo? – exalavam, naquele momento, no espaço, a tônica da junção homem e natureza, ou melhor, criança e natureza e pincelavam, assim, os painéis mais naturais que podem ser aguardados desse encontro, desse casamento, desse abraço.
Todo esse ensejo se debruçava abaixo do canto matinal dos pássaros. Eles apareceram, neste dia, mais numerosos que no dia anterior. Talvez em razão da chuva que resolveu rascunhar a sexta feira com suas cinzas nuvens, seu clima mais frio e sua pálida máscara, escondendo o sol.


To Be Continued
            By Jahilton Magno                                          21.03.14