A Luta

A LUTA
Bom dia, amiga Vida. A semana está começando. Ontem não te escrevi. Era domingo. Resolvi me socializar um pouco com os que amo e conhecer outros para amar. Sabe, minha alma é leve, encanta-se facilmente com a vida, e de quando em vez vejo-me entregue às trocas de experiências salutares com outros de minha espécie. Sou de paz, tento manter o equilíbrio da boa ordem relacional com todos. 
Mas quero abrir um precedente aqui. Creio que uma confissão. Não se surpreenda, mesmo sabendo que lhe pedir isso seria infrutífero. O que aconteceu?, me indagas curiosa. Ontem briguei. Sim isso mesmo. Um desentendimento diferente. De repente estava contemplativo. Vi, ao longe, que levavam algo de mim. Mas percebi que não havia sentindo o momento de tal furto. Então corri. Na verdade nem sei o que levaram, sei que senti falta. Parece estranho - ponderas. Era sim. Mas minha existência sentiu a necessidade de correr atrás de algo que lhe pertencia. Só não sabia o quê.

Separei folhas velhas pelo chão, com o vento da minha velocidade. Senti-me nalguns momentos sufocado, cansado. Mas a minha condição momentânea não se sobrepunha ao desejo de me ver ressarcido de tal lesão. Tornei-me maratonista em busca de um troféu. Mas era muito mais o que estava em jogo. 
Decepcionante, entretanto, era sentir-me cada vez distante. Alcançar o meu alvo estava se tornando utópico, quase miraculoso ato. Mas eu não desistia. Sabe, dona Vida, quando se corre sabendo que alguma coisa vai decerto acontecer, mesmo não sabendo o quê? Era isso que me inundava a mente, fazendo com que meus músculos fossem oxigenados mais que o normal. 
Foi aí que, não mais que de repente, alcancei... Quem? O quê? - me questionas. Na verdade nem eu sabia. Joguei-me sobre ele - ou ela, ou alguma coisa? - e começamos a travar um duelo campal. Golpeei. Fui golpeado. Meu adversário era exímio lutador. Tentava eu me defender com a medida possível da minha capacidade. Mas os golpes eram duros e me explodiam em áreas do corpo que minavam as minhas defesas. Cirurgicamente me pontuou certeira pancada na minha perseverança; depois, com a destreza de um grande guerreiro, acertou-me na região da paciência. Fiquei fraco e quase não dava para respirar. Noutro instante, me direcionou um direto na minha capacidade de ser coerente. 
Minhas forças foram se diluindo. Como se não bastasse, golpeou-me os sonhos. Era uma luta quase desigual. Parece que o meu oponente sabia a intensidade dos murros e o local a serem objetivados. Tentei proteger-me de todas as formas. Afastei-me. Abaixei-me. Fui para a direita e para a esquerda. De súbito, dona Vida, vi que já havia sangue por todas as partes. 
O embate já era apenas um batendo e outro apanhando. Recebi uma profunda pancada na razão. Meu corpo todo sentiu. Minha consciência sofreu duro soco. E meu adversário parecia não sentir nada. Minhas investidas não surtiam efeito. Quanto mais eu batia, mais ele ficava em pé, e quanto mais eu apanhava, mais perto eu declarava meu fim. Fragmentou-me a alegria, a disposição, e enfraqueceu-me o caráter. Já quase não restava nada de mim. Mas eu lutava como se ainda tivesse tudo para apostar. 
Sofri uma forte lesão na minha condição de conceber laços com outros; não demorou me fustigou um ferimento na minha paz. Esse encontro já demorava bastante e eu já não sabia quanto tempo poderia suportar. Mas meu senso e inteligência guiaram meus punhos. Bum!... Acertei mortalmente aquele gladiador. Onde lhe feri? - me perguntas. Na própria fraqueza dele: Eu. 
Tomei o que me roubava. Então percebi o que era: meu futuro. Estás surpresa mais uma vez, digníssima vida? Também eu. Mas aprendi que mesmo não o conhecendo - meu futuro - ele me pertencia. E foi necessário derrotar o maior adversário, que corria velozmente contra mim, mantendo duro duelo, estratégico, perspicaz, diligente, sagaz. 
É, dona Vida, de quando em vez sou guerreiro e defendo, com minha existência, até o que vou ser, pois não sabendo como será, mais proteção o meu futuro merece do meu presente.

30.03.15
By Jahilton Magno