As Crianças Sem Futuro

Em homenagem a Aylan Kurdi, o menino sírio de três anos que morreu afogado na quarta-feira (2) em Bodrum, na Turquia

Jesus, porém, disse: Deixai as crianças e não as impeçais de virem a mim, porque de tais é o reino dos céus (Mateus 19:14) 


Sou pai. Tenho certeza de que, se um dia precisar, deixo de me oferecer qualquer benefício para faze-lo a minha filha. A obrigação de promover o melhor para sua família é algo instintivo no pai ou na mãe. É assim nos animais irracionais, é assim conosco. Quando isso não acontece, algo está fora do prumo natural do desenrolar da vida. Ver um filho chorar é um sofrimento muito grande. Pai ou mãe desejaria, se possível, transferir qualquer dor de um filho para si. Principalmente quando ela é pequena, desprovida de recursos até mesmo naturais de encarar os desafios da vida. Sobreviver já se torna, hoje em dia, um ato de pura bravura para um adulto; mais ainda o é para um ser pequeno e indefeso.
Jesus demonstrou cuidado especial pelas crianças e disse que delas era o reino de Deus. O reino de Deus é justiça, amor, paz, liberdade, oportunidade, respeito, valor. O apóstolo Paulo nos lembrou isso em sua carta aos romanos: Porquanto o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Romanos 14:17). Em vários trechos da bíblia, vemos que os filhos são presentes de Deus (Gênesis 33:5; Josué 24:3; Salmos 127:3). A criança é um presente de Deus, e, como tal, deve ser tratada à altura da grandeza de quem permitiu que assim fosse.Mas ao ser noticiada na mídia de ontem e hoje de que um corpo de uma criança síria foi achado em uma praia da Turquia, damo-nos conta de que o valor da criança foi esquecido em face de uma guerra inexplicável. O naufrágio da embarcação em que fugia da guerra, não somente tirou a vida daquela criança - como também de outras e vários adultos - mas escancarou para o mundo que o desrespeito pela vida chegou ao extremo, através dessa guerra estúpida, irracional, covarde e brutal, como acontece hoje naquela parte do mundo. Quem deveria estar sorrindo, hoje chora. Quem deveria estar brincando, hoje se encolhe no colo de pais aturdidos, perplexos, assaltados da sua dignidade e buscando em qualquer lugar apenas um local seguro para si e para os pequenos. Quem deveria estar fechando os olhos para brincar de "esconde-esconde", hoje os fecha para a vida, banhada pelas águas de uma praia que apenas simboliza a morte, a dor e o desespero. Quem deveria pegar nas mãos a areia para brincar, a tem misturada ao seu corpo, apenas esperando que algum soldado o encontre para, se possível, fazer um sepultamento digno do valor que Deus lhe atribuiu. Ser criança naquele pedaço de mundo é simplesmente ver roubados os sonhos de um futuro normal, como deveria ser. Ser criança, nessas circunstâncias de guerra, é viajar por lugares novos não como um turista que se encanta com as mais lindas paisagens e descobertas de um mundo novo, mas como fugitivo que abandona a paz, o sossego, a escola, a dignidade, atropelando uma fase da vida que nunca mais volta.
Essa guerra, que é fugir em busca de segurança, coloca em risco a vida e atira nos braços das circunstâncias a sorte de um futuro, que possivelmente pode nem vir a acontecer. Assim, a justiça do Reino de Deus não se pratica e nem é experimentada por esses meninos e meninas, filhos do Altíssimo, aos quais esse Reino pertence e para quem foi preparado, por conta das atrocidades provocadas pela ignorância da podre religião, do fanatismo, da intolerância, do desrespeito. A mesma que foi praticada por loucos torcedores do Corinthians em janeiro de 2013, na Bolívia, em uma competição internacional.
A dor não atinge apenas o outro lado do mundo, mas o nosso continente, a nossa nação, as nossas cidades, como recentemente ocorreu em imperatriz há alguns dias, quando um homem estuprou e matou uma criança de doze anos. As barbáries contra crianças se alastram pelas vias da vida, traumatizando, inutilizando, destruindo sonhos, tirando vidas. Aos adultos, Jesus deixou o imperativo para que deixassem as crianças ir de encontro ao reino de paz e justiça, porém a oferta que é feita é de morte e dor, descaso e abandono, sofrimento e melancolia.
A liberdade, pela qual o Filho de Deus lutou e quer estabelecida para as crianças, foi rompida e esquecida pelos adultos, de modo que única possibilidade que se lhes apresentam é via do abandono. O mar de alegria e desapego com as preocupações - que vêm enfermando a sociedade - deu lugar a um banho de sangue, e onde era para vermos a corrida alegre, pelas areias soltas de uma linda praia turca, presenciamos a mais pura exemplificação de que estamos nos direcionando para um caos ainda maior.
A morte que atinge os pequeninos contrasta com a palavra de Jesus. A liberdade que Ele ensinou – deixem vir a mim os pequeninos – cedeu lugar a um "STOP" para a vida, para o sonho, para a alegria, para o futuro. Ao nos depararmos com essas cenas chocantes, que elevemos nosso coração aos céus numa oração de humildade e esperança, nas expectativa de que o Pai, Justo e Santo, tenha misericórdia dos que aqui ficam ainda vivos, diante de tão trágicas atitudes de desamor do ser humano para com ele mesmo.
Jesus nos ensinou, mas não aprendemos. Jesus nos legou o exemplo, mas não entendemos. Jesus nos outorgou a autoridade para estabelecer um reino de justiça e paz, mas não obedecemos. Jesus nos comissionou com grande responsabilidade de cuidar uns dos outros e com mais cuidado ainda dos frágeis e pequeninos, mas não aceitamos essa missão, porque as nossas intransigências, maldades, mesquinharias e vaidades se elevam mais alto em nossos corações, roubando-nos o amor e a submissão a Deus, resultando em cenas como essas.
Que a graça do Pai nos permita não eliminar a vida na sua gênese, mas protegê-la e fazer de uma praia um local de fotos e cliques de sorrisos e alegrias, brincadeiras e castelos, de banhos e corridas, de vislumbres e surpresas, não de morte e dor, como as que estão acontecendo nesse instante.
Oremos ao Pai que nos compadeçamos de nós mesmos. 

By Jahilton Magno, Pai.
03.09.15

Rendição



Boa tarde, dona Vida. Hoje é quarta feira. Ando meio perplexo com os acontecimentos com os quais a humanidade anda construindo. Sim, isso mesmo, a construção de alguns fatos tem me mexido o íntimo e estou perdendo a capacidade de entender o funcionamento das coisas. Sou adulto, e até onde consta a coerência e a naturalidade das coisas, confesso que não estou acostumado com certas anormal
idades - na verdade, anomalias, em meu entendimento. Quando eu era criança, amiga Vida, aprendi a me vestir de alegria e caminhar ladeado pela liberdade e inocência com muita pureza. Os meus olhos não conseguiam ver maldade em tantas coisas. A verdade é que eu interpretava maldade geralmente naquilo que pudesse causar dor em mim ou em outro amigo. Fora isso, não a entendia de outra forma.
Nosso descompromisso com qualquer coisa era algo tão natural, como naturais eram os dias que embalavam nossas vidas. Tudo não passava de pura ingenuidade. Ser criança era viver fatos e atos concernentes somente a essa época. Experiências não encontradas em outra fase da vida. Ser criança era ter a possibilidade de dormir com a ânsia de acordar para fazer do dia seguinte não menos divertido que o anterior. Se possível, até melhor. Ser criança era sorrir de qualquer coisa, uma queda de um amigo, sua própria queda. Ser criança era tomar um puxão de orelha, como resultado de ter feito algo errado, ou por ser teimoso, mas no outro dia fazer de conta que nada aconteceu e ignorar todas as recomendações antes recebidas. Ser criança era cair e arranhar o joelho, chorar, mas, em poucos segundos, levantar-se para a vida.
Não consigo lembrar de uma infância, assim como da minha, de outra forma. Havia um bulício que direcionava simplesmente na celebração da vida. O vigor da época corria nas veias. Os ventos dos sonhos esvoaçavam os cabelos. A adrenalina dos perigos não embotava o desejo das descobertas, de modo que as aventuras se tornavam apenas meras coadjuvantes necessárias a esses momentos. Não era possível desenhar o mundo de uma criança de outro jeito. Pelo menos é assim que pinto o meu.
Mas hoje, aqui e ali, não é este o curso normal das experiências, pois o normal cedeu lugar ao que antes era inadmissível; o sabor da época juvenil foi tragado pela morte; o cheiro de ânsia de vida, esfacela-se na ignorância e na brutalidade de adultos; o brilho dos olhos de ser criança tem se acidentado fatalmente em penhascos de arbitrariedades. O mundo das imaginações (como quando se cria ao se ler um bom livro), fruto de mentes desprovidas de soberba, possível somente nelas, as crianças, afasta-se a cada dia e um abismo gigantesco se apresenta diante delas. O futuro, pior, tem sido posto dentro de uma redoma intransponível, onde o ódio se avizinha e grandes soldados vestidos de incoerência e frieza guardam esse lugar. Impossível não descrever de outra forma.
Ah, minha amiga Vida, essa semana fiquei assombrado com uma criança que se rendeu ao ver uma máquina de fotografar empunhada por um homem. Levantou as mãos e mordeu os lábios de tão grande tensão. Na verdade, não levantou as mãos: levantou apenas o pedido pela vida e rejeitou a morte. Ela viu naquela aproximação o fantasma que a assombrara, o fim de tudo. Suas mãos revelaram a rendição da infância diante da mortalidade que aflige ainda hoje seu país.
Fico pensando, dona Vida, o que será, de um ser pequeno e frágil, que tem a alma como que de uma seda branca, esperando serem gravados os registros da sua história, experimentando sentimentos tão incompatíveis com seu estado psicológico, com a sua idade. Quais histórias gravará na sua existência? As mãos para o alto revelam o descostume com a vida, ao passo que, de forma profunda, uma relação estressante com a guerra e suas atrocidades. As mãos para o alto são o sinônimo do medo e ao mesmo tempo a demonstração de que já não há um ato nem mesmo de fuga, como consequência natural humana. O simples - uma câmera fotográfica - transforma-se em arma, pois na verdade não é o objeto em si que causa isso, mas toda uma construção de experiências mórbidas e dolorosas que tem no adulto o seu agente principal.
Ele, munido de quaisquer parafernálias, torna-se um algoz, e não importa se é uma máquina ou apenas um pau de self, ou uma metralhadora mesmo; para quem já não consegue respirar o mundo infantil com a suavidade que lhe é inerente, quem sabe um braço de boneca pode ser capaz de fazer os olhos serem arregalados e as mãos virem ao alto, numa resposta imediata a qualquer possibilidade de violência. Quem vive o medo vinte e quatro horas por dia, não tem tempo para ser natural e para ver naturalidade nas coisas, porque lhe foram roubados a leveza da vida, o aroma e o sabor da existência. Ela não confunde máquina com arma; ela apenas assimila adulto à morte, adulto à dor, adulto à guerra, adulto à destruição.
Essa rendição, digníssima Vida, é um ato pela misericórdia; é o desnudamento da alma que já está acostumada a viver sob e sobre escombros, tendo despedaçados seus laços familiares mais profundos. Deparar-se com uma câmera talvez seja interpretar aquela instante como último, porque para alguns que conhecia, quando ouviram algo como um click, tiveram um encontro com a morte. Talvez o flash tenha trazido à lembrança o brilho dos rojões de uma noite permeada por bombardeios e tiros.
Não é difícil entender tal reação, quando se toma conhecimento do ambiente e suas particularidades. Mas me abisma, dona Vida, ver todos esses reflexos num ser tão dócil, frágil, pequeno, sem ideia até mesmo da existência. Pena quando não se tem noção da vida porque a morte tomou proporções incompreensíveis e vai plantando suas raízes na alma humana . Experimentar a morte em vida, torna-se portanto uma das maiores atrocidades causadas a um ser humano, mais ainda a uma criança. Pior que experimentar a morte na morte.
Essas mãos, amiga Vida, as interpreto também assim:
"Não atirem, não me matem.
Na verdade, a morte já é viver interpretando qualquer movimento diferente como um pesadelo do qual não posso acordar.
Minhas mãos para cima dizem que já não tenho nada para ser levado. Estou rendido.
Revistem-me e verão que já me desarmei faz tempo.
Desarmei-me de lutar pela vida, de acreditar no futuro, de ver bondade no homem, de compreender porque essa guerra mata e fere tanto.
Estou, mesmo criança, desarmado da inocência e da pureza,
e tudo que consigo perceber é que ainda me resta respirar,
mas não sei por quanto tempo."

01.04.15

By Jahilton Magno

Ele vive




ELE VIVE

O verdadeiro Cristo, no qual acredito, não está mais entre os mortos:
ELE RESSUCITOU.

Se eu não acreditar nisso, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé.

1 Coríntios 15:14

Amor




AMOR


Simplesmente é uma questão de amor: 

amor compreendido, amor correspondido.


Essa relação se estabelece com suavidade, sem agressão, sem barganhas, sem medo ou penitência.  


Assim compreendo minha convicção de resposta ao amor do Pai. 


Não consigo ficar inerte a tão grande prova de amor para comigo. 


É absolutamente impossível. 


São Luís, 09 de Abril de 2015


 By Jahilton Magno

Aroma

AROMA

De repente, um cheiro de algo, lá no tempo deixado, exalou em meu coração. 

Simplesmente fechei os olhos e deixei-me ser conduzido pelas sensações e lembranças.

O coração, então, chorou, a mão ficou gelada, e a temperatura do corpo mudou, suspirei querendo tatear as imagens. 

Ainda fechados os olhos, baixei a cabeça, silente, e peguei-me em soluços. 

O aroma da vida era inconfundível. 

Tinha cheiro de gente, cheiro de mim, cheiro de gente em mim, de mim em gente.  

Era simplesmente uma saudade que se materializava ao cair da noite, assim de leve, sem pretensão, mas espontâneo. 

O passado tem cheiro, idade, temperatura, cor, ri e chora, abraça e aperta, sorri e faz chorar. Desculpem-me os duros, mas não sei viver sem esses vislumbres! 

Se eu não chorar, fico com medo de perder minha humanidade e vê-la engolida pelas durezas do cotidiano.

São Luís, 11 de Abril de 2015

By Jahilton Magno

Identidade



IDENTIDADE
Ei, acorda - ouvi bem longe.Quem é? - perguntei.
Sou eu - respondeu
Eu? - indaguei Sim. Estou aqui... - disse-meTentei levantar, ainda não entendendo nada. Não precisa se levantar - disse-me, acalmando-me.A voz era suave, não estranha, leve, cativante.Quero apenas te dar um abraço - expressou.Aproximou-se. Em mim não havia reações externas. Apenas me tomava um misto de dúvidas e surpresa.Afagou-me com singularidade e a temperatura tinha a textura do amor. A pele trazia um calor de alma. O cheiro... Ele fincava em mim sensações não desconhecidas. Fechei os olhos. Confesso que era de uma agradabilidade aquele momento. A minha preocupação de saber quem era de repente se foi, pois entre a curiosidade e o bem-estar - naquele momento - optei pelo segundo.Vagorosamente foi me soltando. Olhou-me nos olhos, ainda perplexos. Trouxe a mão aos meus lábios.
Não diga nada - alertou-me.Senti-me desamparado das forças naturais de um homem. E o silêncio tomou-me o ser com terna delicadeza.Sou tua companhia constante - começou -. Às vezes revelo-me de dia, outras à noite. Não me importo se estás sozinho ou acompanhado. Não me faz diferença a escola, o trabalho, tua casa, teus amigos, pois sou parte de ti. Você foi capaz de me adotar quando comigo esteve pela primeira vez e chorou. A tua lágrima foi nossa aliança, o teu choro o nosso pacto, a tua dor e alegria nosso segredo. Eu te acompanho, mesmo quando não me sente. Saiba que sou educada, o teu convite é a minha mais grata alegria. Quando quiser andar de mãos dadas em estradas absurdas, intransponíveis, acene, que de pronto venho te ladear.Por fim, quero te dizer que a minha peregrinação contigo se finda quando a tua alma se dessensibilizar para a vida, os fragmentos de outras já forem interpretados como desnecessários e o teu coração não mais arder por construções erguidas há tempos dentro de ti. Neste momento, me ausentarei - foram suas palavras.Mas quem é você? - desesperadamente perguntei-lhe, já vendo despedir-se de mim.SAUDADE... Meu nome é saudade - disse-me com a voz calma e distante.Pus-me quieto.O passado tinha posto em mim seu dna.Viver, também, era carrega-lo.

By Jahilton Magno.
Ps: há momentos que fatias, fragmentos, recortes da vida surgem te ensinando que só é possível ser completo quando as colocamos na ordem certa. Eles têm lugar.
São Luís, 13 de Abril de 2015

João e João

O centro histórico estava muito movimentadoPessoas caminhavam de um lado a outro. A vida ia nesse vaivém necessário e contínuo. Parece que ela não muda, sempre nesse ciclo. 
Olhos nem se cruzavam. Gente parecia nem perceber gente. Médicos, frentistas, advogados, alunos, professores. Toda sorte de pessoas se esbarrava, sem que suas histórias sequer fossem conhecidas. 
João - talvez pedreiro, ou carpinteiro, ou motorista, quem sabe qualquer profissão - parou o passo, olhou no chão, sob a sombra da árvore. Viu um disjuntor. Isso, um disjuntor. Olhou com calma. Fixou um pouco mais, abaixou-se e pegou. Sacudiu com cautela, como quem toma em mãos uma lâmpada mágica em busca de um gênio. Soprou. Tirou a poeira. Pensou se estava boa. Mas não poderia testar. 
Aproveitou para descansar, pois estava exausto e suado. O sol era escaldante. 

Ficou com aquela pequena peça na mão. O que fazer? Pensou estar perdendo tempo. Olhou de um lado a outro e ficou se perguntando se não estava fazendo papel de bobo no meio da rua, instigado por uma pequena peça de plástico e ferro. Finalmente concluiu que não era de nada. Olhou novamente. Mexeu a parte do liga e desliga e escutou certo estalo como se bom estivesse. Sorriu. Mas para que ele levaria para casa uma peça achada no chão? 
Lembrou que ainda tinha um compromisso e que o tempo estava contra ele. Olhou o pequeno objeto. Sorriu. Olhou à frente, deu início a sua caminhada e, de súbito, atirou o fragmento para trás com força. 

Desfez-se a curiosidade. Refez-se a respiração. O calor então diminuíra. 
Caminhou rapidamente. Retomou o rumo. Perdeu-se na multidão e apenas mudou de lugar o material da sua curiosidade. Não lhe valia nada. 
Então, sentado à beira da calçada, outro João, o Ninguém, com fome, catador de lixo, limpador da cidade, ouviu a queda da pequena peça e olhou para ela. Não mirou para lado nenhum - não tinha compromisso com a vergonha nem com a etiqueta. Ele nem era sociedade. Juntou-a. Passou-lhe a mão carinhosamente. 
Carregava nas costas um saco grande, cheio de pedaços de esperança. Limpou a descoberta como quem limpa um quadro, uma obra de arte. Seus olhos brilhavam. Viu futuro. Viu Sorriso. Viu vida. 
Jogou a peça dentro do saco. Levantou-se. Caminhou a passos apressados e largos. Encontrou alguém que tudo que era bom comprava. Mostrou-lhe o achado. Foi avaliado como bom. Ninguém... Ele sorriu. Esbanjou alegria. Recebeu três reais pelo troço. 
João saiu vibrando. Ele sabia porque sorria. 

Correu velozmente. Chegou à padaria. Com toda a fortuna, comprou pão. 
Enfim, em casa. Ninguém.. Ele tinha casa. Tinha família. Tinha quem lhe aguardava, como quem aguarda o papai Noel. Meio sonho, meio real. 
Colocou o pão sobre a mesa. Seu filho lhe abraçou e comeu. João chorou. 
João era feito de carne e osso e era alguém na vida de alguém. Fazia do nada, o alimento e via no nada, uma chance.
By Jahilton Magno
15.02.2015


LIÇÕES DE UM PÉ DE MANGA


Do quintal da minha casa eu vislumbrava um lindo e frondoso pé-de-manga-espada. Todo ano, ele indubitavelmente presenteava meu vizinho com maravilhosas e suculentas mangas. A seu tempo, a mangueira ficava imponentemente, carregada de frutos que davam água na boca. 
Lembro de idos tempos, em que, no período oportuno, alegrava-me ver que as flores exibiam singular beleza. Essa aparição vinha adornada da presença de muitos insetos que se alimentavam ali, com particularidade indizível. Sei que parece um dos fenômenos mais naturais e corriqueiros da vida, mas injetava dentro em mim grato assombro, de modo que era impossível deixar de perceber. O problema é que a correria cotidiana às vezes acaba nos roubando a capacidade de perceber o leve, mas notório desenrolar da vida, com suas nuanças, dotada de tão grande propriedade. 
Essa constatação do brilho das flores me enchia já da certeza de que o melhor momento estava chegando: colher as mangas. A manga-espada, aqui afirmo, é a melhor de todas. A sua docilidade é ímpar; sua textura algo não encontrado em outra; o seu cheiro, indiscutivelmente incomparável.
Quando menino, tinha a mania de levar comigo a nossa 'farinha d'água', em saco, para cima de pés de manga espada, e lá em cima, saciava tanto a fome física quanto a psicológica, pois era um tormento vê-las maduras lá no alto e saber que aquele gosto só poderia ser sentido uma vez por ano, em época específica. 
Portanto, em mim, existe todo um deslumbramento diante de um pé-de-manga-espada, pois ele me remete a tempos passados e vividos com extrema profundidade, causando saudades salutares, lembranças agradáveis de sabores nunca esquecidos, de cheiros nunca extintos em minha mente. 
Toda vez que eu olhava essa mangueira ao fundo do quintal da minha casa, esse êxtase me abraçava, envolvia-me apertadamente e sussurrava em meus ouvidos a canção da estação. Minha mente se embrenhava com a sensação gostosa do sabor de um bom pedaço, não cortado com faca, mas selvagemente arrancando no dente, primeiro a casca e tão logo me melecando com a maciez da sua polpa. 
Essa mangueira fazia isso todos os anos. Suas flores era como se fossem seu sorriso que gerava em mim riso também; seus frutos era como se fossem suas palavras de cuidado para comigo; seus grandes galhos era como se fossem seus braços a mim estendidos; suas folhas, a certeza da renovação contínua do seu compromisso de perpetuar aquela rotina anual, a fim de me abençoar. Desculpe-me se consigo ver bênção e presença de Deus em uma mangueira. Quem quiser atirar a primeira pedra, fique à vontade, pois não sou capaz de mudar paradigmas se, antes de tudo, não existe fé que reconhece a graça, o cuidado, a presença e a ação conspirativa do Eterno no ar, na água, nas plantas, nos animais, nas flores, e em tudo que é tão aparentemente corriqueiro, mas tão fundamental à vida. 
O importante que independente da capacidade obtida ou não de se debruçar diante de tais fatos, a mangueira do meu vizinho, que eu adotara, era fiel não a mim, mas à sua natureza. Ela nasceu para ser mangueira e como tal, deveria todos os anos, com muita chuva ou com pouca chuva, com verão muito quente ou não, com cúmulos, ou nimbos; não importa, ela cumpria seu papel initerruptamente todos os anos na estação, com o mesmo charme e com o mesmo ritual: mudança de folhas, novas flores e a certeza do fruto. 
O pé-de-manga-espada era de um comportamento fenomenal: não guardava rancor do inverno muito rigoroso, nem mesmo do verão doloroso e seco; ele não se irritava com a volatilidade do tempo; se o sol lhe sorrisse, bem estava; se a chuva cerrasse o ventre, bem também estava; se os ventos impiedosamente lhe castigavam, ele, firme, mantinha seu posto; se a noite lhe abraçasse com gelidez, ainda assim ele se impunha a ser simplesmente o que veio a ser: PÉ-DE-MANGA-ESPADA; se as estações mudassem e trouxessem consigo as mudanças, sua atitude era de apenas se adaptar, mas nunca mudava sua natureza; quando lhe catapultavam paus e pedras, embora vendo pedaços seus sendo arrancados, não se envergava da sua postura de ser mangueira. Ano a ano ela me ensinava sobre natureza, sobre fidelidade e mais ainda sobre o gosto da sua produção. Ela estava ali, cem por cento ativa, apesar todos os inimigos e algozes. 
Um dia acordei e não vi mais folhas, nem galhos, nem sombra, nem beleza, nem vida, nem flores, nem frutos. Aquilo me chamou a atenção. Deduzi, dolorosamente, que certamente o proprietário da casa tenha se apossado talvez de um facão, com o intuito único não sei se de podar ou mesmo de dar um fim trágico àquele árvore. Certo que não mais vi sua imponência, não senti mais o alívio da sua sombra em escaldantes tardes do verão da Ilha do Amor. 
No entanto, passado não sei quanto tempo depois, porque a cronologia sobre sua ausência não cogitei registrar, vi novamente galhos, flores Via a vida que outrora tinha julgado nunca mais veria novamente. Percebi, então, que ainda havia ali uma mangueira, e que não lhe foi tirado o direito à vida, mas apenas lhe foi dada a chance de continuar, agora com cortes, com marcas profundamente inesquecíveis, com castrações dolorosas, com experiências traumáticas. Foi-lhe permitido viver, embora carregasse na sua experiência a triste certeza de um dia ter encontrado um objeto cortante na mão de alguém. A sua história nunca mais seria a mesma. 
Quando chegou a estação das frutas, ah como eu aguardava esse momento e queria saber a sua reação a tudo que viveu! Pensei comigo mesmo que ela não seria capaz de gerar mais vida, apesar de estar viva. 
Enganei-me alarmantemente. Fui convidado a conhecer velhos vizinhos, com os quais não havia tido contato pelas últimas estações. Os insetos bailavam envolvendo o PÉ-DE-MANGA-ESPADA, como se dançassem uma clássica valsa de Beethoven ou Chopin, idealizada simplesmente para aquele ensejo. O riso me foi devolvido, pois ele foi presente daquela árvore. Vi a vida gerando vida; vi a vida se renovando e trazendo novidades a quem se aproximava. 
Mais um pouco e vi mangas. Vi a fidelidade, embora dores; vi o cuidado dela comigo, ainda que nalgum tempo possa ter sido cerceada de tal atitude. Entendi que, embora não me tenha abençoado com a dádiva do fruto, fê-lo sendo corajosa, perseverante, arrancando da terra, do clima, do sol, da lua, do vento e de cada estação as forças necessárias para voltar a ser o que sempre foi. E sussurrou-me aos ouvidos com carinho e delicadeza: NASCI PÉ-DE-MANGA-ESPADA e nada poderá mudar a minha natureza, nem sol, nem chuva, nem vento, nem calor ou frio; nem a maldade de quem arrancou os galhos e as folhas e tenha me diminuído; quem me culminou a grandeza externa, nunca arrancou de mim a essência, pois está dentro em mim; nada poderá tirar a minha natureza, pois vim a este mundo para ser isso. E todo o tempo que estive ausente, sem grandes galhos, muitas folhas, e muitos frutos, por todo este tempo eu apenas fortalecia em mim a grandeza da minha vocação. Nasci para dar frutos e nem mesmo quando me tirarem a vida sei que ainda estarei dando frutos, pois deixei outros frutos que a tempo certo vão trazer também a minha natureza e a minha identidade. Não escolhi nascer mangueira: nasci mangueira.
Peguei mais uma manga. Comi. Aprendi as lições do PÉ-DE-MANGA-ESPADA.
By Jahilton Magno