As Crianças Sem Futuro

Em homenagem a Aylan Kurdi, o menino sírio de três anos que morreu afogado na quarta-feira (2) em Bodrum, na Turquia

Jesus, porém, disse: Deixai as crianças e não as impeçais de virem a mim, porque de tais é o reino dos céus (Mateus 19:14) 


Sou pai. Tenho certeza de que, se um dia precisar, deixo de me oferecer qualquer benefício para faze-lo a minha filha. A obrigação de promover o melhor para sua família é algo instintivo no pai ou na mãe. É assim nos animais irracionais, é assim conosco. Quando isso não acontece, algo está fora do prumo natural do desenrolar da vida. Ver um filho chorar é um sofrimento muito grande. Pai ou mãe desejaria, se possível, transferir qualquer dor de um filho para si. Principalmente quando ela é pequena, desprovida de recursos até mesmo naturais de encarar os desafios da vida. Sobreviver já se torna, hoje em dia, um ato de pura bravura para um adulto; mais ainda o é para um ser pequeno e indefeso.
Jesus demonstrou cuidado especial pelas crianças e disse que delas era o reino de Deus. O reino de Deus é justiça, amor, paz, liberdade, oportunidade, respeito, valor. O apóstolo Paulo nos lembrou isso em sua carta aos romanos: Porquanto o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Romanos 14:17). Em vários trechos da bíblia, vemos que os filhos são presentes de Deus (Gênesis 33:5; Josué 24:3; Salmos 127:3). A criança é um presente de Deus, e, como tal, deve ser tratada à altura da grandeza de quem permitiu que assim fosse.Mas ao ser noticiada na mídia de ontem e hoje de que um corpo de uma criança síria foi achado em uma praia da Turquia, damo-nos conta de que o valor da criança foi esquecido em face de uma guerra inexplicável. O naufrágio da embarcação em que fugia da guerra, não somente tirou a vida daquela criança - como também de outras e vários adultos - mas escancarou para o mundo que o desrespeito pela vida chegou ao extremo, através dessa guerra estúpida, irracional, covarde e brutal, como acontece hoje naquela parte do mundo. Quem deveria estar sorrindo, hoje chora. Quem deveria estar brincando, hoje se encolhe no colo de pais aturdidos, perplexos, assaltados da sua dignidade e buscando em qualquer lugar apenas um local seguro para si e para os pequenos. Quem deveria estar fechando os olhos para brincar de "esconde-esconde", hoje os fecha para a vida, banhada pelas águas de uma praia que apenas simboliza a morte, a dor e o desespero. Quem deveria pegar nas mãos a areia para brincar, a tem misturada ao seu corpo, apenas esperando que algum soldado o encontre para, se possível, fazer um sepultamento digno do valor que Deus lhe atribuiu. Ser criança naquele pedaço de mundo é simplesmente ver roubados os sonhos de um futuro normal, como deveria ser. Ser criança, nessas circunstâncias de guerra, é viajar por lugares novos não como um turista que se encanta com as mais lindas paisagens e descobertas de um mundo novo, mas como fugitivo que abandona a paz, o sossego, a escola, a dignidade, atropelando uma fase da vida que nunca mais volta.
Essa guerra, que é fugir em busca de segurança, coloca em risco a vida e atira nos braços das circunstâncias a sorte de um futuro, que possivelmente pode nem vir a acontecer. Assim, a justiça do Reino de Deus não se pratica e nem é experimentada por esses meninos e meninas, filhos do Altíssimo, aos quais esse Reino pertence e para quem foi preparado, por conta das atrocidades provocadas pela ignorância da podre religião, do fanatismo, da intolerância, do desrespeito. A mesma que foi praticada por loucos torcedores do Corinthians em janeiro de 2013, na Bolívia, em uma competição internacional.
A dor não atinge apenas o outro lado do mundo, mas o nosso continente, a nossa nação, as nossas cidades, como recentemente ocorreu em imperatriz há alguns dias, quando um homem estuprou e matou uma criança de doze anos. As barbáries contra crianças se alastram pelas vias da vida, traumatizando, inutilizando, destruindo sonhos, tirando vidas. Aos adultos, Jesus deixou o imperativo para que deixassem as crianças ir de encontro ao reino de paz e justiça, porém a oferta que é feita é de morte e dor, descaso e abandono, sofrimento e melancolia.
A liberdade, pela qual o Filho de Deus lutou e quer estabelecida para as crianças, foi rompida e esquecida pelos adultos, de modo que única possibilidade que se lhes apresentam é via do abandono. O mar de alegria e desapego com as preocupações - que vêm enfermando a sociedade - deu lugar a um banho de sangue, e onde era para vermos a corrida alegre, pelas areias soltas de uma linda praia turca, presenciamos a mais pura exemplificação de que estamos nos direcionando para um caos ainda maior.
A morte que atinge os pequeninos contrasta com a palavra de Jesus. A liberdade que Ele ensinou – deixem vir a mim os pequeninos – cedeu lugar a um "STOP" para a vida, para o sonho, para a alegria, para o futuro. Ao nos depararmos com essas cenas chocantes, que elevemos nosso coração aos céus numa oração de humildade e esperança, nas expectativa de que o Pai, Justo e Santo, tenha misericórdia dos que aqui ficam ainda vivos, diante de tão trágicas atitudes de desamor do ser humano para com ele mesmo.
Jesus nos ensinou, mas não aprendemos. Jesus nos legou o exemplo, mas não entendemos. Jesus nos outorgou a autoridade para estabelecer um reino de justiça e paz, mas não obedecemos. Jesus nos comissionou com grande responsabilidade de cuidar uns dos outros e com mais cuidado ainda dos frágeis e pequeninos, mas não aceitamos essa missão, porque as nossas intransigências, maldades, mesquinharias e vaidades se elevam mais alto em nossos corações, roubando-nos o amor e a submissão a Deus, resultando em cenas como essas.
Que a graça do Pai nos permita não eliminar a vida na sua gênese, mas protegê-la e fazer de uma praia um local de fotos e cliques de sorrisos e alegrias, brincadeiras e castelos, de banhos e corridas, de vislumbres e surpresas, não de morte e dor, como as que estão acontecendo nesse instante.
Oremos ao Pai que nos compadeçamos de nós mesmos. 

By Jahilton Magno, Pai.
03.09.15

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