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João e João

O centro histórico estava muito movimentado .  Pessoas caminhavam de um lado a outro. A vida ia nesse vaivém necessário e contínuo. Parece que ela não muda, sempre nesse ciclo.   Olhos nem se cruzavam. Gente parecia nem perceber gente. Médicos, frentistas, advogados, alunos, professores. Toda sorte de pessoas se esbarrava, sem que suas histórias sequer fossem conhecidas.   João - talvez pedreiro, ou carpinteiro, ou motorista, quem sabe qualquer profissão - parou o pa sso, olhou no chão, sob a sombra da árvore. Viu um disjuntor. Isso, um disjuntor. Olhou com calma. Fixou um pouco mais, abaixou-se e pegou. Sacudiu com cautela, como quem toma em mãos uma lâmpada mágica em busca de um gênio. Soprou. Tirou a poeira. Pensou se estava boa. Mas não poderia testar.   Aproveitou para descansar, pois estava exausto e suado. O sol era escaldante.  Ficou com aquela pequena peça na mão. O que fazer? Pensou estar perdendo tempo. Olhou de um lado a outro e ficou se pergun...

LIÇÕES DE UM PÉ DE MANGA

Do quintal da minha casa eu vislumbrava um lindo e frondoso pé-de-manga-espada. Todo ano, ele indubitavelmente presenteava meu vizinho com maravilhosas e suculentas mangas. A seu tempo, a mangueira ficava imponentemente, carregada de frutos que davam água na boca.   Lembro de idos tempos, em que, no período oportuno, alegrava-me ver que as flores exibiam singular beleza. Essa aparição vinha adornada da presença de muitos insetos que se alimentavam ali, com particularidade indizível. Sei que parece um dos fenômenos mais naturais e corriqueiros da vida, mas injetava dentro em mim grato assombro, de modo que era impossível deixar de perceber. O problema é que a correria cotidiana às vezes acaba nos roubando a capacidade de perceber o leve, mas notório desenrolar da vida, com suas nuanças, dotada de tão grande propriedade.   Essa constatação do brilho das flores me enchia já da certeza de que o melhor momento estava chegando: colher as mangas. A manga-espada, aqui afirmo, é ...

A SARÇA ARDENTE - ALGUMAS LIÇÕES

FAZIA TEMPO QUE EU NÃO ESCREVIA EM MEIO ÀS LÁGRIMAS    Será que Moisés, na é poca com mais de quarenta anos, nunca havia visto uma sarça sendo consumida pelo fogo? Creio certamente que sim. Nã o apenas uma, nem duas, mas  incontáveis vezes. Entretanto, nunca tinha visto Deus numa sarça em chamas. Quando a graça se faz presente, o que é tão frívolo e tão corriqueiro toma nuances  do Eterno, há  celestialidade , há vida. Uma simples sarça é agora um elo entre o profano (eu) e o sagrado (Deus). Quando Deus se faz presente, ou mesmo quando nos deixamos perceber da Sua presença, o não notável toma formas de obra de arte, o inaudível assenhora-se de sinfonia, o invisível, se apresenta com pinceladas de artista, com ares de poesia.    A simples sarça, tão comum no deserto do oriente, não apenas se desmancha no calor tão escaldante da região, mas agora queima, porque em Deus o óbvio se desconserta, e as páginas da história de vida se  re-...

MEMÓRIAS

Acordei bem cedo, muito mais que o normal. Era sábado.  Verdade é que durante os dias da semana, tinha uma preguiça aguçada para levantar, tomar banho e me arrumar para ir à escola. Nem sei se fui eu que despertei abruptamente ou se era a magia da época dos papagaios que me abriu os olhos, tomou-me pelos braços e ergueu-me em direção à porta dos fundos da casa. A reação instintiva que tive foi olhar para os céus. Creio que eram cinco e meia da manhã mais ou menos. Vi o dia acordando e me dando bom dia. Sorri, e uma sensação de dia bom envolveu-me a alma naquele instante. Arregalei os olhos nas nuvens a busquei aquelas que denominavam que o dia seria ensolarado, bom para minhas investidas. Estudei cada nuvem na busca primeira dos Nimbos e dos Estratos. Ah como eu sorri por não vê-las tão cedo! Queria mesmo que nenhuma sequer me acompanhasse naquele dia. A presença do sol era suficiente para fazer o meu dia feliz. E eu queria ser feliz naquele dia. Então, caleidoscópica e mili...

MENOS MIMOS E MAIS VIDA

MENOS MIMOS E MAIS VIDA   Nascer, crescer e morrer. Assim podemos definir e encerrar a experiência de existência do ser humano. O nascimento é, em si,  um dos  mais sublimes acontecimentos ,  dentro dos incontáveis nos quais o homem tem a experiência de estar inserido.    Crescer é o longo processo  por que  temos que caminhar, e, nele,  vamos no s  descobrindo e  encontrando -nos   ou desencontrando . Na estrada do crescimento, deparamo-nos com as alegrias da vida, ora com as decepções, afortunamo-nos por vezes, ora encontramo-nos com os algozes. Essa imutável realidade vai gerando em nós  o conhecimento do que verdadeiramente é a vida e de que substância na verdade ela é formada.    Morrer é o ato final. É o ato que não praticamos .    S omos o ator principal,  mas   na verdade a única atitude que de nós  se  exige é estar vivo. É desconexo, talvez, mas é a re a...

A LIÇÃO DIÁRIA DO PERDÃO

Quando estamos envolvidos em problemas de relacionamento em quaisquer esfera das nossas vivências, temos a destrutiva tendência de focarmos a nossa visão em cima dos erros da pessoa com quem estamos experimentamos dificuldades. Isto é extremamente normal à natureza do ser humano. Di fi cilmente não agimos dessa maneira. Se somos sinceros conosco mesmos, vislumbraremos tantos e tantos quadros das nossas relações  pintados  com as tintas da acusação e da parcialidade. Focar  nos erros também  nos impossibilita de perce ber  que existem caminhos que podem reverter situações delicadas e que aparentemente são vistas como finais, no que diz respeito à soluções. Agindo desta forma, não teríamos expectativas agradáveis para a humanidade, pois ela estaria fadada à morte. A manutenção do distanciamento em nossas relações por causa de erros somente causariam uma perpetuação dolorosa de experiências traumatizantes, rupturas sofridas, separações angustiantes.   P...