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SOBRE A PALAVRA E O SILÊNCIO

A PALAVRA E O SILÊNCIO 

Estimada Vida, olá. Sou alma. Por isso escrevo. Tenho uma imensa necessidade de me manter conectado com a vida. Outras vidas. Em mim, arde um bulício de dialogar com outros corações. Aquela conversa franca, desprovida de arranjos ou liturgias. Aquela que brota da simplicidade e na simplicidade. Para isso, letras vão ajudando na medida do possível, pois há momentos que não conseguem. Palavras, aqui e ali,  entristecem-se e me dizem que há emoções e sentimentos sobre os quais a elas é possível somente ficar apreciando, mudas. Entende quando as palavras ficam mudas? Sabia que elas falam e calam. Preciso desses dois momentos delas. A minha alma necessita ser fala e ser silêncio. Tudo a seu tempo certo. 
Aprendi a me comunicar, cara Vida, na evocação do ato da linguagem. Em momentos, por meio de sons; noutros, apenas com o olhar; noutros, de olhos fechados, noutros, com lágrimas, noutros, respirando o sonho, noutros, recordando coisas e pessoas.
Quando escrevo, é nesse ritmo que me envolvo, é nessa cadência que me embalo, é nesse tom que afino as ideias. Ah, cara Vida, é como se fosse uma epopeia que se abre dentro em mim. As minhas construções vão se tecendo nesse ensejo. Aventuras, risos, choros, contemplações, reflexões. Dialogo comigo mesmo, sempre na busca da exatidão. Ao passo que também  na minha possibilidade criativa  vejo-me sentado conversando com meu possível leitor. Não dá para ser diferente. E do que disponho? Como agora, apenas das palavras e, por isso, tenho por elas apreço incomensurável. Respeito-as em suas possibilidades. Respeito-as em sua sincera atitude de emudecer-se diante dalguns fatos. Elas aprenderam que existe um abismo entre o seu mundo e o mundo de algumas emoções. Há momentos que elas exaurem todas as chances da expressão, não me restando mais encontrar quaisquer decifração. Eclodem barreiras, pois não há mais signo. É que na vivência dos fatos e das emoções, há significado sem significante.
Então, ilustríssima Vida, diante desse caos, o que fazer? Calar-me porque as palavras já não atenderiam mais o ofício? Claro que não. Rumo ao caminho da aproximação, e, com cautela, usufruo do que a linguagem, na sua limitação, permite-me, também, trazer aos dedos. Curioso? Demais. Meio inexplicável? Totalmente. Drummond já falou disso. Já vi o imortal Goulart tratando algo acerca. Quando tudo vai por tão íngreme caminho, honro a coerência de me prostrar apenas em estado contemplativo.
Não se enfade, dona Vida, com minhas conjecturas. É que apenas descrevo, de forma cabível, as tantas sequências e fatos que me envolvem quando desejo manter contato com o mundo interno de outros. E para estabelecer essa ponte, não tenho outro caminho que não seja o da palavra. É a palavra, e pela palavra, que adentro corações, alegro alguns, entristeço outros, surpreendo e surpreendo-me tantas vezes. Essa relação busco-a em meio a lutas, pois, entre o que se quer dizer o que se consegue dizer, orbita a guerra. Será que é possível dizer tudo que o se quer dizer?, me perguntas. Ao longo das minhas aventuras, os fatos me ensinaram tantas coisas. Mas creio que há algumas que ao mundo das palavras não cabem. Então, se não é possível, é crível de existência?, me indagas. Creio que sim. Por exemplo: vi uma mãe tomar em suas mãos, seu filho recém-nascido e levá-lo ao peito para mamar. Vi um choro tão fundo da criança cessar-se de súbito, quando sentiu o cheiro, o calor e o gosto do leite da mãe. No mesmo instante, testemunhei um choro silencioso e a lágrima da mãe vendo-se ainda mais mãe, materializando o ato do amor naquele singelo feito da amamentação. O que falar do sentimento da mãe? Lutarei com as palavras. Luta vã. Diante de tal circunstância, calo-me, porque elas, as palavras, cerraram os lábios e a mim me confessaram: não nos cabe.
Continue comigo, amiga Vida, pois lembrei-me de mais um acontecimento que tento relatar: a padaria estava cheia. Ela, morena, na casa dos trinta anos, estava na fila, normalmente. De repente, um vulto magro e alto foi sentido. Ela virou-se e olhou. Sentiu medo. Baixou os olhos. Uma sensação de temor e insegurança lhe deram um nó na garganta. Mas tudo isso seria pouco. Em fração de segundos, ela ouviu uma voz a lhe chamar:
 Isolda  disse a voz masculina.
Ela não acreditou que fosse com ela. Fingiu não ouvir. Disfarçou ignorar o som.
 Isolda  insistiu a voz.
Num misto de apreensão e curiosidade, levantou a cabeça, olhou para trás. As mãos tremiam. Engoliu a saliva, temerosa. Era ela mesma que a voz chamava.
— Sou eu, Francisco  disse aquele homem magro, castigado, barbudo, mal-vestido e com sinais de abandono. 
Era um andarilho, já conhecido pelos frequentadores dos arredores. Porém ela... Ela não conseguiu estabelecer relação entre o nome e a pessoa, embora ambos lhe tenham sido familiares. Fazia tanto tempo que não o via.
 Olha como estou. Eu me acabei  disse-lhe o andarilho.
Isolda ainda se recuperava do susto do chamado, quando foi tomada pela perplexidade da revelação. Francisco tornou-se usuário de drogas, depois andarilho. A rua era a sua moradia. À noite, cobria-se com a ignorância da sociedade. Alimentava-se do desgosto de ter sido abandonado pela família. Embalava-se seu sono com a mesma marginalidade com que lhe tratavam.
Isolda sentou-se com Francisco e ela não conseguiu falar. Simplesmente ouviu. Chorou. Dentro de si, questionou. Lamentou. Lembrou a infância, assim tão rápido. Não entendeu.
— Não se preocupe — disse-lhe ele . Não faço mal a ninguém.
Depois de um tempo, despediram-se. Isolda foi para a sua cama, confortável. Francisco foi para qualquer cama que ele sempre fazia em qualquer lugar.
Percebeu, dona Vida, como é difícil? O que registrei, certo estou que causou um monte de sentimentos em si. Descrevê-los seria possível? Assim como o emudecimento avolumou-se em Isolda e a fez inerte com as palavras, creio que também salvaguardar-me coerentemente na mesma atitude será a minha mais honrosa projeção.
Assim, respondo a sua pergunta de há pouco: "Então se não é possível, é crível de existência?". Existe. Creio. E quanto mais vivo, aprendendo com as palavras e lidando com elas, dia a dia, compreendo que entre o ser e a sua representação, ou a tentativa dela, existem tantos emudecimentos cabíveis apenas à alma de quem vive tais realidades.

In memorian do meu amigo de infância Carlos Henrique — Gui. Ele era o andarilho. Ela, nossa amiga também.

27.03.15

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